O recado das urnas

EDITORIAL

Em nível nacional, as urnas contrariaram os institutos de pesquisa, que davam como certas as vitórias de alguns nomes veteranos da política, mas que acabaram ficando pelo caminho. Alguns desses institutos, depois da vexatória atuação no pleito de 2018, preferiram não arriscar desta vez e mantiveram as intenções de voto dos dois principais candidatos à Presidência dentro da chamada margem de erro. Ainda assim, erraram novamente. Nem mesmo a grande imprensa, que setores da opinião pública consideram esquerdista e panfletária, demonstrou a isenção que dela se esperava.

Na região formada por Mairiporã, Caieiras, Cajamar, Francisco Morato e Franco da Rocha, o resultado foi o esperado, com vitórias do atual presidente apenas em Franco da Rocha e Francisco Morato.

Trazendo o resultado das urnas para o território mairiporanense, mais uma vez ficou evidenciado o prestígio e o capital político do prefeito Aladim. Os candidatos Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas venceram seus adversários com folga, com destaque para o desempenho do governador.

Não se pode ignorar que Mairiporã é uma cidade de perfil conservador e que oferece pouco espaço eleitoral a candidatos situados fora desse espectro ideológico. Isso se verifica inclusive nas disputas municipais. Em toda a história político-eleitoral do município, apenas uma vez o PT conquistou uma cadeira na Câmara de Vereadores. O eleito, entretanto, deixou o partido meses depois, em uma época na qual o troca-troca partidário não apenas era permitido, mas ocorria às escâncaras.

De todo modo, o prefeito Aladim saiu do pleito de 4 de outubro ainda mais fortalecido e reafirmou sua condição de principal protagonista da própria sucessão, em 2028. Quem pretende chegar à Prefeitura terá de considerar seu apoio e seu cacife eleitoral como fatores relevantes na disputa.

A oposição, por sua vez, mostrou-se uma das grandes derrotadas das eleições gerais no município. Um vereador e um ex-vereador lançaram seus nomes em uma tentativa de antecipar a disputa de 2028, mas fracassaram na obtenção dos votos. Passaram longe daquilo que projetavam: algo em torno de 8 mil votos. Cada um obteve pouco mais de 2 mil, resultado que contrasta com o de outros candidatos da cidade que, em eleições anteriores e diante de um colégio eleitoral bem menor, conseguiram votações muito superiores.

Ainda faltam dois anos para a sucessão municipal, mas o calendário eleitoral já começa a produzir seus efeitos. A situação remete à conhecida história do copo meio cheio ou meio vazio: há quem considere prematuro discutir a próxima eleição e quem enxergue neste momento uma oportunidade para avaliar forças e fraquezas. De todo modo, os números oferecem uma referência objetiva para essa análise. E, nesse cenário, o prefeito Aladim foi o grande vencedor do pleito de 4 de outubro, tornando-se ainda mais cobiçado por aqueles que sonham ocupar a principal cadeira do Palácio Tibiriçá.

A análise que se impõe, porém, vai além da contagem dos votos. O resultado fortalece Aladim, mas também coloca a oposição diante de uma realidade que não pode ser ignorada: antecipar uma candidatura não significa antecipar o apoio do eleitor. A votação obtida por seus representantes é um sinal de que discurso, ambição e capacidade de mobilização nem sempre caminham juntos. Para quem pretende disputar a Prefeitura, o desafio será transformar visibilidade em confiança e intenção em voto.

Aladim, por sua vez, chega a esse cenário em posição privilegiada, mas não deve confundir o desempenho de candidatos apoiados com uma transferência automática de votos para o futuro escolhido. A eleição municipal terá suas próprias circunstâncias, seus próprios interesses e, sobretudo, seus próprios candidatos. O apoio do prefeito poderá representar uma vantagem decisiva, mas não será, por si só, garantia de vitória.

O recado das urnas, portanto, tem dois destinatários. À oposição, cabe compreender que o caminho até 2028 será mais difícil do que suas projeções sugeriam. Ao grupo governista, cabe reconhecer que a força demonstrada agora precisará ser preservada e convertida em uma candidatura capaz de reunir apoio para além do resultado das eleições gerais.

Afinal, uma coisa é sair fortalecido de uma eleição; outra, bem diferente, é conseguir eleger o sucessor.

Posts similares

  • Que Legislativo queremos?

    Mairiporã tem pouco mais de 200 candidatos que pretendem disputar uma das 13 cadeiras da Câmara Municipal. Mesmo sabendo-se que a briga para prefeito monopoliza as atenções, é imperioso deitar olhos mais atentos na escolha dos vereadores que, em tese, são os que encaminham e aprovam as políticas públicas que impactam a vida da população….

  • Modismos à parte

    O ser humano sempre foi atraído por modismos. Eles moldam comportamentos, vestem gerações e marcam épocas. Basta olhar ao redor para perceber: roupas, perfumes, calçados, cortes de cabelo, joias, bijuterias – tudo segue ciclos que vão e voltam como as marés. E, curiosamente, até aquilo que deveria carregar identidade, história e afeto também entrou na…

  • Performance medíocre

    A legitimidade conquistada pelo voto popular contrasta com o comportamento dos vereadores de Mairiporã, especialmente durante os trabalhos legislativos, cujas ações são mais visíveis à população do que o dia a dia nos refrigerados gabinetes. O Poder Executivo, que deveria ser fiscalizado, é tratado como se fosse o senhor absoluto das ações. Ou seja, o…

  • Discurso para 2020

    A eleição municipal de 2020 pode ter como carro chefe o discurso de gestão. Os discursos populistas, ao estilo Aiacyda, não colam mais. A população já não suporta o estado de atraso a que a cidade está submetida há mais de 15 anos. O que o povão quer mesmo é gestão, um administrador de verdade,…