O Brasil que lê menos e o futuro que

LUÍS ALBERTO

Existe uma pergunta que me acompanha sempre que penso no futuro das nossas crianças e dos nossos jovens: que histórias estamos deixando de contar e, principalmente, que histórias estamos deixando de ler? Os números ajudam a entender a dimensão dessa preocupação. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro e divulgada em 2024, revelou um dado que deveria provocar uma reflexão em toda a sociedade: 53% dos brasileiros com cinco anos ou mais não leram sequer parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa.

Pela primeira vez na série histórica do levantamento, iniciada em 2007, os não leitores superaram os leitores. Em apenas quatro anos, o país perdeu 6,7 milhões de leitores.

Não estamos falando de uma diferença pequena, de uma estatística distante da nossa realidade ou de um problema restrito às escolas. Estamos falando de milhões de pessoas que, por diferentes razões, estão cada vez mais distantes dos livros. E, quando olhamos para os jovens, a preocupação ganha ainda mais importância, porque é justamente nessa fase da vida que formamos parte dos hábitos, dos valores e da maneira como compreendemos o mundo.

A pesquisa mostrou que a redução do número de leitores atingiu praticamente todas as faixas etárias, incluindo adolescentes e jovens adultos. Entre as poucas exceções está a faixa dos 11 aos 13 anos, que manteve seu percentual de leitores. É um sinal importante: a escola, a família e o contato com os livros durante a infância podem fazer diferença, mas precisamos trabalhar para que esse interesse não desapareça conforme os jovens crescem.

Vivemos em uma época em que a informação chega em segundos, as imagens disputam nossa atenção e as redes sociais nos oferecem estímulos a todo instante. Nunca tivemos tanto conteúdo disponível e precisamos encontrar maneiras de recuperar a disposição para parar, observar, refletir e mergulhar em uma história. Ler exige tempo, mas também nos ensina a lidar com ele. Exige atenção, mas amplia nossa capacidade de compreender aquilo que acontece ao nosso redor.

Um livro não serve apenas para ensinar palavras novas ou ajudar um estudante a obter melhores resultados nas provas. Ele nos apresenta outras realidades, nos permite conhecer sentimentos que talvez nunca tenhamos experimentado e nos coloca diante de perguntas para as quais nem sempre existem respostas prontas.

A leitura desenvolve a imaginação, amplia o vocabulário, fortalece o pensamento crítico e nos ajuda a interpretar a sociedade em que vivemos. Para um jovem que começa a descobrir seu lugar no mundo, isso pode fazer uma diferença enorme.

Precisamos compreender uma coisa: não vamos formar leitores apenas dizendo aos jovens que eles precisam ler. É necessário aproximar os livros de sua realidade, apresentar histórias que despertem curiosidade, garantir acesso às obras e, principalmente, mostrar que a leitura também pode ser prazerosa. A família tem um papel fundamental, a escola é indispensável e o poder público precisa fortalecer bibliotecas, projetos culturais e iniciativas que democratizem o acesso à literatura.

Também acredito que nós, escritores, temos uma responsabilidade nessa missão. Um livro não pode existir apenas para ocupar uma prateleira ou para satisfazer o desejo de quem o escreveu. Ele precisa encontrar pessoas, provocar sentimentos, despertar lembranças e, de alguma maneira, deixar uma marca em quem o lê. É com esse pensamento que me preparo para lançar mais um livro, O Meu Mundo do Nosso Quintal, uma obra que nasce das minhas memórias, das experiências da infância e da compreensão de que as histórias aparentemente mais simples podem carregar os sentimentos mais profundos.

Ao escrever, revisitei lugares, pessoas e momentos que continuam vivos dentro de mim. Percebi, mais uma vez, que a literatura tem essa capacidade extraordinária de preservar aquilo que o tempo insiste em levar.

Não escrevo acreditando que posso mudar o país sozinho. Escrevo porque acredito que cada um de nós pode contribuir com aquilo que sabe fazer. A minha maneira de participar dessa transformação é contar histórias, preservar memórias e incentivar outras pessoas a descobrirem o valor da leitura.

Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”

 

 

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