Mais uma CAR na Câmara

O colunista Essio Minozzi publica nesta edição, à página 4, artigo em que aborda a criação de uma Comissão de Assuntos Relevantes (CAR) na Câmara de Vereadores – a primeira da atual legislatura. A iniciativa, em si, não causa estranheza. Ao contrário, trata-se de instrumento já amplamente utilizado em legislaturas anteriores. O que chama atenção, contudo, é o histórico que acompanha esse tipo de comissão no Legislativo municipal.

Sem entrar no mérito dos temas que motivaram sua criação ao longo dos anos, o fato é que foram dezenas de CARs instituídas, quase sempre cercadas de expectativas, mas raramente seguidas de resultados conhecidos pela população. Pouco – ou nada – se divulgou sobre conclusões alcançadas, encaminhamentos adotados ou efeitos práticos decorrentes dos trabalhos. Permaneceram, na memória coletiva, como iniciativas que consumiram tempo, estrutura e recursos públicos sem a devida prestação de contas à sociedade.

Para agravar o ceticismo, muitas dessas comissões ainda necessitaram de sucessivas prorrogações de prazo, prolongando atividades que, ao final, não produziram conclusões claras ou medidas efetivas. O resultado foi a consolidação da percepção de que a criação de Comissões de Assuntos Relevantes se tornou, em certos momentos, mais um expediente político do que um mecanismo eficiente de fiscalização e proposição.

Não se ignora que os temas abordados foram variados e, em muitos casos, legítimos. O problema nunca esteve propriamente nos assuntos, mas na ausência de transparência quanto ao rito processual, às análises realizadas e, principalmente, aos resultados obtidos – elementos essenciais para justificar a existência dessas comissões perante o cidadão.

Agora, a atenção recai sobre a Sabesp. A nova CAR sustenta que a empresa vem prestando serviço insatisfatório no abastecimento de água, além de aplicar tarifas consideradas elevadas, superiores às praticadas antes da privatização. Trata-se, sem dúvida, de tema relevante e diretamente ligado à qualidade de vida da população, merecendo acompanhamento rigoroso do Poder Legislativo.

Entretanto, a experiência recente recomenda cautela. Iniciativas anteriores da Câmara relacionadas à Sabesp não produziram efeitos concretos perceptíveis. Nada impede que desta vez o desfecho seja diferente, mas o histórico impõe prudência nas expectativas. Fiscalizar é dever do vereador; apresentar resultados, porém, é obrigação ainda maior.

Mais do que instaurar comissões, o que a sociedade espera é transparência, publicidade dos trabalhos e consequências práticas. Sem isso, corre-se o risco de que a nova comissão repita o roteiro das anteriores: muito anúncio, pouca efetividade e nenhuma resposta clara ao cidadão.

Por ora, é apenas mais uma CAR na Câmara Municipal.

 

 

 

 

Posts similares

  • Sem meias palavras

    Próximo de completar dois anos à frente da Prefeitura, em seu terceiro mandato, o prefeito Antônio Aiacyda não consegue realizar o básico e não há um só dia em que o jornal não receba denúncias de moradores relatando falta de limpeza em áreas públicas, mato no lugar de gramados, calçadas em desnível e esburacadas e…

  • Os dois lados do balcão

    No próximo dia 6 de outubro de 2024 os eleitores mairiporanenses vão escolher os novos dirigentes municipais. E o foco, aqui, é a escolha daqueles que, ungidos das urnas, ocuparão as 13 cadeiras da Câmara, que nos últimos trinta anos tem se pautado pelo compadrio, promessas de emprego e distribuição de favores pessoais. Na prática,…

  • Palhaçada!

    Diariamente as emissoras de TV, rádio, os jornais e as redes sociais amedrontam os brasileiros com números cada vez mais ‘cabeludos’ sobre o total de mortos e infectados pelo novo coronavírus, especialmente em São Paulo. São dados dos órgãos governamentais e da mídia festiva, que faz da pandemia o seu carro-chefe. Não se fala nada…

  • Custos e desafios da ‘tarifa zero’

    A proposta de zerar as tarifas do transporte coletivo urbano voltou à pauta do governo federal e, sobretudo, das prefeituras, que buscam formas de transformar a ideia em política pública sustentável para milhões de trabalhadores. Estimativas preliminares apontam que seriam necessários, em escala nacional, cerca de R$ 75 bilhões por ano para assegurar um sistema…

  • Negacionistas?

    O termo que dá título a este editorial, segundo o dicionário, significa ‘ato de negar-se a acreditar em uma informação estabelecida em áreas como a ciência e a história”. No decorrer desta semana, ao ser cobrada por estratégias para evitar o desperdício de doses da vacina contra a dengue, com prazo de validade até o…