A medicamentosa cura pela fé

No tempo da pressa o negócio são os diagnósticos rápidos e as respostas imediatas. Para cada dor, uma bula; para cada tristeza, uma explicação química; para cada ansiedade, um nome difícil de pronunciar. O cérebro virou território de mapas, gráficos e exames coloridos. Mas, no meio desse avanço todo, algo antigo voltou a bater à porta da ciência: a fé. A quaresma começou e o tema agora é recorrente, afinal mesmo para quem não é católico, inevitável ler e ouvir a respeito destes quarenta dias.

Falo da fé não como religião institucionalizada, mas a fé como exercício interior, como linguagem silenciosa da esperança. Pesquisas recentes vêm apontando que momentos de oração, meditação e confiança profunda ativam áreas do cérebro ligadas à serenidade, ao autocontrole e à capacidade de enfrentar adversidades. Em outras palavras: quando o ser humano acredita, o cérebro responde.

É curioso perceber que o órgão mais racional do corpo também é o mais sensível ao invisível. Enquanto os neurônios disparam impulsos elétricos, o coração fabrica sentidos. A ciência descobre aquilo que as avós sempre souberam: quem acredita sofre menos. Quem confia, adoece menos da alma. Quem tem esperança aprende a respirar mesmo quando o mundo parece apertado demais.

O Papa Leão convidou ao jejum da língua. Tomar mais cuidado com que dizemos talvez seja um grande sacrifício para qualquer momento do ano. O tempo em que vivemos é um tempo adoecido. A pressa virou estilo de vida. O medo virou hábito. A comparação virou regra. Nunca se falou tanto em depressão, ansiedade e esgotamento emocional. As pessoas estão cansadas sem ter caminhado, exaustas sem ter carregado peso, feridas sem ter caído. O cérebro, sobrecarregado de estímulos, perdeu o silêncio. E é exatamente no silêncio que a fé encontra morada.

Não sei se é por essa inquietude que milhões acordam de madrugada para orar com o Frei Gilson.  Quando alguém se recolhe para orar, refletir ou simplesmente confiar, algo se reorganiza por dentro. O pensamento desacelera, a respiração se alinha, a emoção encontra repouso. Não é milagre imediato, mas é um tipo de cura invisível: uma costura lenta nas rupturas da mente. O cérebro aprende que nem tudo precisa ser controlado. Que há forças maiores do que o medo. Que existe um amanhã mesmo quando hoje está escuro.

Muitos são os nossos desafios e talvez seja por isso que, em tempos de crise, as pessoas voltam a rezar. Não por desespero apenas, mas por intuição. Algo dentro de nós sabe que acreditar é uma forma de sobreviver. Que confiar é uma forma de continuar. Que ter fé é uma maneira silenciosa de curar aquilo que não sangra, mas dói.

Quando eu tinha ansiedade, minha mãe sempre dizia: Reza que passa. Eu me acostumei. Sou cheio de manias maravilhosas que em sua simplicidade, minha mãe me transmitiu. A vida doeu e ainda dói, mas que medicamente maravilhoso ela me deixou, pois a fé continua sendo meu grande remédio.

 

Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”

 

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