Os sinos da Catedral de Notre-Dame

LUÍS ALBERTO

Hoje eu ouvi os sinos da Catedral de Notre-Dame e confesso que, por alguns instantes, não soube distinguir o que era emoção, o que era história e o que era simplesmente a felicidade de estar ali, em Paris, diante de um dos monumentos mais extraordinários que a humanidade já construiu. Há experiências que a gente planeja, organiza, coloca no roteiro de uma viagem, mas há outras que, quando acontecem, parecem ultrapassar qualquer expectativa.

Ouvir os sinos de Notre-Dame foi uma dessas experiências. Não era apenas o som que ecoava pelas ruas de Paris. Era como se, por alguns segundos, o passado e o presente se encontrassem diante dos meus olhos.

Estar na cidade luz tem sido uma experiência que vai muito além de conhecer pontos turísticos. É caminhar por ruas que carregam séculos de história, observar construções que atravessaram gerações e perceber que, mesmo em um mundo tão acelerado, existem lugares capazes de nos convidar à contemplação.

A Catedral de Notre-Dame, localizada na Île de la Cité, no coração de Paris, começou a ser construída em 1163, durante a Idade Média. Sua edificação levou quase dois séculos para ser concluída, atravessando diferentes períodos e gerações. São mais de oito séculos de existência, testemunhando transformações políticas, religiosas, sociais e culturais que ajudaram a construir a própria história da França. Suas torres, seus vitrais, suas esculturas e seus arcos não são apenas elementos arquitetônicos. São registros de uma época em que a fé, a arte e o trabalho humano se uniam para erguer algo que pudesse atravessar o tempo.

Notre-Dame sobreviveu à Revolução Francesa, quando sofreu danos e perdeu parte de seus elementos originais. Tornou-se ainda mais conhecida mundialmente a partir da obra de Victor Hugo, O Corcunda de Notre-Dame, publicada em 1831, que ajudou a despertar a consciência sobre a importância da preservação da catedral.

Uma das imagens mais marcantes de sua história recente tenha sido a de 15 de abril de 2019, quando um incêndio devastador atingiu sua estrutura, destruindo parte do telhado e provocando o desabamento da emblemática agulha.

O mundo assistiu, com tristeza, àquela cena e também acompanhou a reconstrução. Um trabalho grandioso, que mobilizou profissionais, especialistas, recursos e esforços de diferentes partes do planeta. Em dezembro de 2024, a catedral reabriu suas portas, reafirmando que a história, embora possa ser ferida, não precisa ser interrompida.

Hoje, ao estar diante dela, não consigo deixar de pensar em tudo isso. Penso nas mãos que colocaram cada pedra há tantos séculos. Penso nas gerações que passaram por aquelas portas. Penso nos que viram a catedral ser construída, nos que testemunharam sua destruição parcial e nos que trabalharam para vê-la novamente de pé. E penso, sobretudo, na força que existe naquilo que escolhemos preservar.

Talvez seja essa uma das maiores lições de Paris. A cidade não se limita a apresentar sua história. Ela nos faz caminhar por ela. E, quando menos esperamos, somos parte de uma pequena lembrança que levarei para sempre.

Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”

 

 

Posts similares