Tomou Mounjaro?

“Nada muda se eu não mudar.” (Heráclito)

Luto com a balança há anos. Uma batalha marcada por tentativas, recaídas, promessas refeitas e frustrações silenciosas. Quem vive isso sabe: não é só sobre peso, é sobre cansaço emocional e a sensação constante de estar devendo algo a si mesmo. Por isso, quando ultimamente eliminei bastante peso, a pergunta veio rápida e repetitiva: “Tomou Mounjaro? Ou, usou a canetinha, né? kkk…”

Houve, sim, mudança de vida. Mudança de rotina, de alimentação, de hábitos e, principalmente, de mentalidade. Ainda assim, essa é a pergunta que mais escuto. Às vezes por curiosidade, outras em tom de chacota, outras por preocupação genuína ou simplesmente por falta de assunto. Mas ela revela muito sobre o tempo em que vivemos.

Vivemos a era das soluções rápidas. Queremos o antes e depois, o resultado visível, a explicação curta. Emagrecer passou a ser entendido, por muitos, como sinônimo de uma caneta. Como se um processo complexo pudesse ser resumido a uma aplicação semanal.

É inegável que a ciência avançou. A tirzepatida e outros medicamentos similares representam um importante recurso no tratamento da obesidade e de doenças metabólicas. Para muitas pessoas, são ferramentas necessárias e eficazes. Mas isso sempre deve acontecer com avaliação, prescrição e acompanhamento médico. Automedicação, uso por modismo ou indicação informal não são cuidados, são riscos.

O ponto central, porém, não está na medicação. Está na virada de chave. A relação com a comida deixou de ser automática e compensatória para se tornar mais consciente. O exercício físico deixou de ser punição e passou a ser compromisso com o próprio corpo.

Nesse processo, as caminhadas tiveram e seguem tendo um papel fundamental. Mais do que uma atividade física, tornaram-se um espaço de encontro comigo mesmo. Caminhar ajudou a organizar pensamentos, reduzir a ansiedade, melhorar o sono e fortalecer a disciplina. O corpo se movimenta, mas a mente também se alinha. É um tempo simples, acessível, mas profundamente terapêutico, que contribui tanto para a saúde física quanto para o equilíbrio emocional.

A rotina precisou ser reorganizada, limites foram estabelecidos e escolhas passaram a ser feitas todos os dias. Nada disso acontece sozinho. O médico é essencial para avaliar a saúde e conduzir o tratamento. O nutricionista ajuda a reconstruir a relação com a alimentação, respeitando corpo e realidade. O psicólogo é fundamental para lidar com ansiedade, compulsão, autoestima e padrões emocionais que sabotam qualquer mudança. Em muitos casos, outros profissionais também fazem parte desse processo. Emagrecer com saúde é trabalho em equipe.

A obesidade não é apenas estética. Envolve fatores biológicos, psicológicos e sociais. Reduzir tudo a uma pergunta simples é ignorar o caminho percorrido. Com ou sem medicação, uma verdade permanece: sem mudança interna, nada se sustenta.

Reflexão – Talvez a pergunta mais honesta não seja “tomou Mounjaro?”, mas: “O que você mudou em você? ” Porque a verdadeira transformação não vem da caneta.

Vem da decisão diária passo a passo, de cuidar do corpo e da mente, e se no caminho der errado é só começar novamente …

 

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduando em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.

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