O aprendiz de feiticeiro dos nossos dias

RAPHAEL BLANES

“Dai-me um ponto de apoio e moverei o mundo.” (Arquimedes)

Há uma antiga história escrita por Goethe que permanece surpreendentemente atual. Em O Aprendiz de Feiticeiro, um jovem, fascinado pelo poder do mestre, resolve usar uma magia que ainda não dominava. Ele consegue dar vida à vassoura para que ela trabalhe por ele, mas descobre tarde demais que sabia iniciar o encantamento, porém não sabia pará-lo. O que parecia uma grande solução transforma-se em caos.

A Disney eternizou essa história, e eu tenho quase certeza que você já deve ter visto, no clássico Fantasia, mostrando Mickey Mouse usando o chapéu do feiticeiro.

Encantado com o poder que tinha nas mãos, ele perde o controle da situação. A cena é divertida, mas a mensagem é profunda: o maior perigo não é conquistar poder, mas acreditar que somos capazes de controlá-lo sem sabedoria.

Talvez nunca tenhamos tido tanto poder quanto hoje. Temos tecnologia, inteligência artificial, redes sociais, dinheiro, influência, fama e acesso quase ilimitado à informação. Entretanto, muitas vezes nos falta aquilo que realmente importa: maturidade, caráter e discernimento.

Criamos ferramentas extraordinárias, mas frequentemente nos tornamos escravos delas.

Vivemos a ilusão de que quanto mais seguidores, mais sucesso; quanto mais dinheiro, mais felicidade; quanto mais poder, mais valor. Trabalhamos sem descanso para alimentar o ego, sacrificando a família, a saúde, a fé e os relacionamentos. Somos aprendizes tentando vestir o chapéu do feiticeiro.

O problema não está na riqueza, na fama, no conhecimento ou no poder. Todos esses podem ser instrumentos para fazer o bem. O perigo está quando deixam de servir ao próximo e passam a servir apenas ao orgulho. O ego sempre promete liberdade, mas termina construindo prisões invisíveis.

Por isso, o conselho de Jesus permanece mais atual do que nunca: “Orai e vigiai, para não cairdes em tentação” (Mateus 26,41). Orar é manter o coração ligado a Deus. Vigiar é observar continuamente as intenções do próprio coração. Quem ora sem vigiar pode cair na ilusão. Quem vigia sem orar acaba confiando apenas em si mesmo.

Reflexão – Talvez a grande pergunta do nosso tempo não seja quanto poder possuímos, mas se possuímos sabedoria suficiente para não sermos dominados por aquilo que criamos.

O verdadeiro mestre não é aquele que controla as forças do mundo, mas aquele que aprendeu, antes de tudo, a governar a si mesmo.

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduado em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.

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