Modismos à parte

O ser humano sempre foi atraído por modismos. Eles moldam comportamentos, vestem gerações e marcam épocas. Basta olhar ao redor para perceber: roupas, perfumes, calçados, cortes de cabelo, joias, bijuterias – tudo segue ciclos que vão e voltam como as marés. E, curiosamente, até aquilo que deveria carregar identidade, história e afeto também entrou na roda das tendências: os nomes dados aos bebês.
Nas últimas décadas, assistimos ao surgimento de “queridinhos” nacionais, uma lista que parece saída diretamente de novelas, filmes ou da criatividade dos roteiristas: Noah, Lorenzo, Gael, Ravi, Benício, Nicolas, Maitê, Liz, Mirella, Antonella, Ayla, entre tantos outros. Muitos nascem da tela; outros do gramado, como homenagem a jogadores de futebol. E assim, guiados por influências pop e paixões momentâneas, pais e mães vão batizando seus filhos com nomes que, muitas vezes, dizem mais sobre o contexto cultural do momento do que sobre a própria família.
Mas um estudo divulgado recentemente pelo IBGE acendeu uma luz que nos remete a um Brasil mais tradicional, quase nostálgico: os nomes mais comuns dos brasileiros continuam sendo, em esmagadora maioria, aqueles que carregam gerações no som e na grafia. Maria, José, João, Ana, Antônio, Júlia, Luiz, Beatriz, Pedro, Marcos, Alice, Helena – nomes que não surgiram da moda, e sim da memória. Da bisavó que contava histórias, do avô que atravessou tempos difíceis, da mãe que perpetua o elo entre passado e futuro.
E essa constatação traz um certo alívio. Em uma época em que algumas escolhas soam excêntricas – para não dizer arriscadas – é reconfortante perceber que boa parte das famílias ainda prefere preservar vínculos afetivos e referências familiares em vez de se render ao imediatismo do modismo. Há algo de saudável nisso, quase um gesto de resistência: em meio a tantas transformações, preservar o nome é preservar também a identidade, a origem, a continuidade.
Mairiporã, claro, não fugiu à regra revelada pelo estudo. Por aqui também prevalecem as incontornáveis Marias e os tradicionais Josés, seguidos de uma série de nomes que, décadas atrás, eram comuns nas certidões de nascimento e continuam ecoando pelas ruas, pelas escolas, pelas famílias. E isso, gostemos ou não, é uma boa notícia. Demonstra que, apesar do apelo quase divino dos modismos alimentados pelas redes sociais, ainda existe espaço – e respeito – pelas raízes.
Vivemos um tempo em que a escrita, especialmente nas mensagens instantâneas, sofre agressões diárias, abreviações extremas e uma certa preguiça linguística que se espalha com velocidade. Os nomes, agora, parecem ter entrado no mesmo turbilhão: grafias inventadas, combinações improváveis, estrangeirismos gratuitos. É como se a identidade fosse tratada como produto, pronta para seguir a tendência do momento.
Mas, felizmente, ainda sobrevivem as Marias e os Josés. E elas – e eles – formam uma confortável maioria. Representam não apenas bom gosto, mas também continuidade, história e pertencimento. São nomes que passam de geração em geração como herança afetiva, carregando consigo um país inteiro de lembranças, tradições e raízes.
Modismos à parte, há um encanto silencioso – e poderoso – na permanência. E talvez seja justamente isso que ainda mantém viva a alma dos nomes que nos acompanham há séculos e que, ao que tudo indica, não desaparecerão tão cedo.

 

Posts similares

  • Criminalidade continua em alta

    As estatísticas divulgadas mensalmente pela Secretaria de Estado da Segurança Pública, com dados oficiais sobre a criminalidade nos municípios paulistas, revelam que as ocorrências aumentam e que o desafio do Governo do Estado, na tentativa de reduzir a violência, está longe de ser superado. Dos 13 indicadores divulgados, geralmente 7 ou 8 são de crescimento…

  • Desemprego na cidade

    Pelo terceiro ano consecutivo Mairiporã registrou menos vagas de trabalho ofertadas ao mercado. Esse quadro negativo vem desde 2012, e o que se vislumbra é que o emprego formal segue ladeira abaixo em ritmo alucinante, jogando milhões de brasileiros na fila do desemprego. O diagnóstico não poderia ser mais cruel. No ano passado foram fechados…

  • Quatro em quatro

    Ainda com a possibilidade de disputar uma reeleição em 2020, o mandato de um prefeito dura exatamente quatro anos. Ou, 1.460 dias, ou ainda 35.040 horas. O equivalente a 2.102.400 minutos. Ou 126.144.000 segundos. A questão é saber se isso é pouco ou muito. Uma resposta a isso pode ser: depende de quem governa e…