De volta à impunidade

Não há lei neste País que resista aos interesses do senhores que ocupam assento no Congresso da República. Interesses nada republicanos, é bom que se frise.

Primeiro foi a Lei de Improbidade Administrativa, que agora facilita a vida dos maus gestores. A justificativa é a de que o texto atacava imprecisões e subjetividades que ‘amarravam’ os bons gestores. Incongruente, pois se são ou foram bons gestores, por que motivos seriam punidos? Com a aprovação, quem entrou na alça de mira foi a Lei da Ficha Limpa, retirando a inelegibilidade do administrador público que teve suas contas reprovadas por irregularidade dolosa – ou seja, intencional -, mas que acabou punido apenas com multa.

O melhor dos mundos é ser deputado, senador, vereador, governador e presidente da República, numa Nação em que há privilégios justamente àqueles que deveriam preservar e endurecer as leis.

A Lei da Ficha Limpa, por exemplo, originária de iniciativa popular, com milhões de assinaturas, agora se vê completamente enfraquecida. Dizia o texto que ficaria impedido de disputar eleição que tivesse condenação decidida por um colegiado. Quando o Supremo, de forma inexplicável, esculhambou geral ao anular todos os processos contra o ex-presidente Lula, previa-se que a Ficha Limpa estava com os dias contados.

Não há motivo algum para livrar da inelegibilidade quem intencionalmente usou mal o dinheiro público. São imensas as dificuldades de se fazer aprovar legislações que punam os mal feitos com o dinheiro público, mas mutilá-las ou exterminá-las basta uma sessão rápida em Brasília.

Quando se imagina que os bandidos que se locupletam do dinheiro do povo terão o castigo que merecem, eis que tudo muda. Se um passo é dado adiante, com muita dificuldade, dez para trás é na base do vapt-vupt.

E ainda surgem os incautos a bradar sobre democracia. Palavra bonita, cheia de ênfase, mas que só vale para as classes mais abastadas, ou seja, aquelas que podem pagar bons advogados.

A gama de brasileiros formada por incautos e calhordas, ainda acredita que democracia é ter direito ao voto.

Como disse certa vez um dos brasileiros mais notáveis, Rui Barbosa, “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”

 

Posts similares

  • Mais do mesmo

    A cada final de ano, logo após as festividades de Natal, os pensamentos se voltam de forma positiva para o novo ano que promete chegar com mudanças na vida de todo mundo. A expectativa sempre é que os próximos 365 dias serão melhores, em que o mundo cessará as guerras, a paz irá prevalecer e…

  • Puro deboche!

    O primeiro ano de atuação dos vereadores foi melancólico. Não usaram das prerrogativas para fazer questionamentos, principalmente os que envolvem dinheiro público, e usaram a maior parte do tempo para, de forma escrachada, cumprimentar pessoas que estavam na plateia, trocas efusivas de parabéns, apresentação de projetos sem alcance social, farta distribuição de honrarias e um…

  • Dinheiro escasso

    Com os registros de candidatos devidamente feitos junto ao Cartório Eleitoral de Mairiporã, a campanha começou a tomar forma e logo de cara sinaliza que será atípica. Há menos candidatos a prefeito e a vereador. Não resta qualquer dúvida sobre a diferença, em comparação com pleitos anteriores, a começar pelo seu prazo de duração, de…

  • Desequilíbrio?

    Não é novidade que em todo pleito municipal as peças do tabuleiro político estão melhores colocadas para aqueles que estão no poder. Seja Prefeitura ou Câmara de vereadores. Os que detêm mandato, de certo modo, saem na dianteira, com ampla vantagem sobre aqueles que desejam conquistar uma das 13 cadeiras do Legislativo, ou até mesmo…