Adolescência
RAPHAEL BLANES
“A única coisa constante é a mudança.” (Heráclito)
Quem convive com um adolescente conhece bem essa curiosa fase da vida. De repente, aquela criança que contava tudo passa a responder “nada” quando perguntamos como foi o dia. A porta do quarto vira muralha, os amigos ganham importância extraordinária e o “eu sei!” parece se tornar resposta oficial para quase tudo.
Calma. Nem sempre há algo errado!
O psiquiatra argentino Mauricio Knobel chamou de “Síndrome da Adolescência Normal” um conjunto de conflitos, contradições e comportamentos que podem fazer parte dessa fase. O adolescente está deixando para trás uma identidade construída na infância e tentando descobrir quem é. E descobrir quem somos, convenhamos, raramente acontece de maneira organizada.
É nessa fase que surgem os questionamentos. “Por quê?” torna-se uma palavra frequente. Pais, professores, regras, valores e até aquilo que parecia uma verdade absoluta passam a ser colocados em dúvida. E talvez isso seja necessário.
O adolescente experimenta ideias como quem experimenta roupas: algumas servem, outras não combinam e algumas serão abandonadas depois de pouco tempo. Errar, mudar de opinião e testar possibilidades também fazem parte de crescer.
Os amigos também ganham um espaço enorme. O grupo representa pertencimento, reconhecimento e a sensação de fazer parte de algum lugar. Por isso, aquilo que para um adulto parece “bobagem” pode ter um peso enorme para um jovem. Mas existe um cuidado importante: compreender a adolescência não significa ignorar o sofrimento.
Oscilações de humor e conflitos podem fazer parte do desenvolvimento. Porém, quando o comportamento se torna intenso, persistente e começa a comprometer a escola, a família, os relacionamentos ou o autocuidado, é preciso olhar com atenção e buscar ajuda profissional.
O desafio de quem cuida está justamente nesse equilíbrio: não transformar todo conflito em doença, mas também não transformar todo sofrimento em “coisa de adolescente”. Talvez o jovem não precise de adultos com respostas prontas. Precise de adultos dispostos a permanecer por perto.
Há diferença entre perguntar “por que você fez isso?” e dizer: “quero entender o que aconteceu”. Entre cobrar respostas e oferecer presença. A adolescência é uma ponte entre a infância e a vida adulta. Nessa travessia haverá dúvidas, erros, portas fechadas e algumas escolhas que nos farão respirar fundo. Nossa função talvez não seja atravessar por eles, nem impedir a caminhada. É estar por perto.
Porque crescer não significa deixar de precisar dos adultos. Significa precisar deles de uma maneira diferente. E talvez a frase mais importante que um adolescente possa ouvir seja simples: “Você está crescendo. Eu sei que não é fácil. Mas você não precisa fazer isso sozinho.”
Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduado em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.