Brasileiros estão saturados do bate-boca da polarização

GAUDÊNCIO TORQUATO

Os brasileiros dão sinais de cansaço diante do interminável bate-boca da polarização. Prova disso é o súbito crescimento do professor Augusto Cury na última pesquisa Nexus/BTG (Registro TSE: BR-08900/2026), o único dos candidatos “nanicos” a chegar ao índice de dois dígitos (11%). Para ele, a polarização política é uma “doença, um fator que adoeceu e dividiu o Brasil de forma psicótica e esquizofrênica”. Ou seja, Cury se apresenta como o candidato antipolarização.

Há mais de uma década, a política nacional parece aprisionada a uma fotografia de duas cores, na qual tudo deve ser enquadrado como luta entre esquerda e direita, lulismo e bolsonarismo, democracia e autoritarismo, povo e elite. A realidade, porém, é mais complexa do que essa moldura. O cidadão que enfrenta o ônibus lotado, a fila do posto de saúde, o preço dos alimentos, a violência e a insegurança do emprego já não encontram utilidade numa guerra verbal que se alimenta de si mesma.

A polarização não é, por definição, um mal. Divergências fazem parte da democracia, organizam escolhas e permitem ao eleitor distinguir projetos. O problema começa quando a diferença se converte em hostilidade permanente e a disputa deixa de buscar soluções para produzir inimigos. Nesse ambiente, não se debate o mérito de uma proposta; investiga-se de que lado ela veio. O adversário já não é alguém a ser vencido pelo voto, mas um inimigo a ser desmoralizado, silenciado ou expulso da vida pública.

As redes sociais agravaram o processo. Sua lógica premia a indignação, o insulto e a frase cortante. A ponderação circula devagar; a agressão ganha velocidade. Algoritmos aproximam pessoas que pensam do mesmo modo e lhes oferecem a ilusão de unanimidade. O debate público perde a capacidade de produzir entendimento. Em vez de uma praça onde opiniões se encontram, formam-se trincheiras digitais, nas quais todos falam, poucos escutam e quase ninguém admite rever uma posição.

Os dirigentes políticos aprenderam a explorar essa engrenagem. É mais fácil mobilizar o medo do outro lado do que explicar como melhorar a educação, reduzir o déficit público, enfrentar o crime organizado ou elevar a produtividade. A polarização funciona como atalho: dispensa programas consistentes, encobre contradições e transforma toda cobrança em traição. Governos culpam adversários por seus fracassos; oposições torcem pelo fracasso dos governos para confirmar suas narrativas. Enquanto isso, problemas antigos permanecem à espera de decisões que exigem diálogo, continuidade administrativa e algum consenso nacional.

O efeito mais perverso desse bate-boca é a substituição da política pela torcida. O eleitor é convocado a vestir uma camisa e a defender seu time, mesmo quando os fatos recomendam crítica. Escândalos são relativizados se atingem os nossos e ampliados se envolvem os outros. Erros semelhantes recebem julgamentos opostos, conforme a identidade do acusado. A ética deixa de ser princípio e vira instrumento de combate. Nessa guerra de conveniências, perde-se a medida comum pela qual uma sociedade avalia governantes, partidos, instituições e autoridades.

A saturação não significa o desaparecimento dos polos. Enquanto a hostilidade render votos, audiência, seguidores e poder, haverá interessados em mantê-la acesa. Os extremos dispõem de militâncias barulhentas e repertórios emocionais. O centro social, mais numeroso do que parece, costuma ser menos organizado e menos ruidoso. Seu desafio é deixar de ser apenas um estado de espírito e transformar o desejo de normalidade em exigência política. Cansaço sem participação pode produzir apatia; cansaço convertido em escolha pode renovar prioridades e comportamentos.

O Brasil precisa recuperar a política como exercício de construção, e não como concurso de ofensas. Isso pressupõe trocar o “quem disse?” pelo “o que está sendo proposto?”, comparar custos, metas e resultados, cobrar prazos e rejeitar promessas sem caminho de execução. Também exige distinguir firmeza de truculência. Um líder pode defender convicções claras sem humilhar adversários, assim como pode negociar sem abandonar princípios. A democracia amadurece quando o diálogo deixa de ser visto como fraqueza e o acordo deixa de ser confundido com rendição.

A eleição deste ano será uma oportunidade para saber se os candidatos compreenderam essa fadiga nacional. Quem insistir na reedição das velhas batalhas talvez mobilize suas bases, mas terá dificuldade para conversar com o eleitor que deseja olhar para a frente. O país real quer saber como crescer, gerar empregos, controlar gastos, melhorar a saúde, garantir segurança e oferecer ensino de qualidade. Quer conhecer o “como”, e não apenas ouvir a repetição do “vou fazer”. Entre slogans inflamados e soluções verificáveis, aumenta o espaço para quem demonstrar competência, serenidade e capacidade de unir.

Os brasileiros não ficaram indiferentes à política; ficaram impacientes com uma política que fala muito de seus próprios conflitos e pouco das necessidades da população. A saturação é um aviso. O eleitor já percebe que gritos não baixam os preços, insultos não abrem leitos, ataques pessoais não alfabetizam crianças e guerras culturais não protegem famílias do crime.

A fotografia em duas cores envelheceu. O Brasil é plural, desigual, contraditório e maior do que seus polos. A liderança que compreender essa mudança não precisará apagar diferenças, mas terá de colocá-las a serviço de um projeto comum. Depois de tantos anos de ruído, talvez a novidade mais poderosa seja oferecer ao país uma conversa adulta.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação.

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