O que você valoriza?

RAPHAEL BLANES

“A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos.” (Marcel Proust)

Diz a lenda, e lenda é aquilo que a gente repete porque é bom demais para ser conferido, que um homem resolveu vender seu sítio e pediu ao poeta Olavo Bilac que escrevesse o anúncio.

Bilac, que tinha intimidade com as palavras, descreveu árvores generosas, pássaros cantando de manhã, água limpinha e uma varanda perfeita para ver o fim da tarde.

O dono leu, releu e desistiu de vender. Quem, de cabeça no lugar, abriria mão de um paraíso desses? O sítio era o mesmo de sempre. O que mudou foi o olhar. Proust agradece, e o corretor, coitado, ficou sem comissão.

Convenhamos: precisar de um poeta para descobrir a própria varanda é um luxo. Mas é assim que a gente costuma funcionar. Só dá valor quando alguém explica. Ou, pior, quando perde.

Hemingway também sabia disso. No livro O Velho e o Mar, o pescador Santiago passa oitenta e quatro dias sem pescar um único peixe. Seu barco é remendado, suas mãos são cheias de cicatrizes e, na vila, todo mundo já o considera um derrotado. Ainda assim, ele não se sente um homem sem nada.

Tem o mar que conhece como a palma da mão, a teimosia que o mantém de pé, o menino que lhe traz café e os leões que aparecem em seus sonhos. Santiago sabe o valor do que tem sem que ninguém precise lhe explicar. O dono do sítio, que tinha uma propriedade linda, precisou de um poeta para perceber.

Isso não é elogio ao comodismo. Tem coisa que merece mudar, sonho que merece esforço, relação que merece distância. Mas querer uma vida melhor não exige falar mal da que já temos, como quem reclama do aluguel de uma casa onde mora de graça.

Então fica a pergunta, sem pressa de resposta: se alguém escrevesse o anúncio da sua vida, você reconheceria o endereço? Ou continuaria achando que o paraíso fica sempre no terreno do vizinho?

Reflexão – Pense no emprego que você pedia a Deus quando estava desempregado e que hoje só rende reclamação. Na casa que já foi sonho e virou conta de luz. No celular que liga você ao mundo inteiro e é ignorado diante de quem divide o sofá com você. No amigo antigo que ainda telefona, e a gente deixa para responder depois.

Os anúncios já estão escritos, só depende de você ler…

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduado em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.

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