Carta aberta aos leitores
LUÍS ALBERTO
Fosse eu descrever aqui o que senti na noite de lançamento do meu segundo livro, talvez acabasse empobrecendo algo tão grandioso, porque há sentimentos que não cabem nas palavras. A gente tenta explicar, procura os adjetivos mais bonitos, organiza as frases, mas, no fim, percebe que aquilo que realmente importa continua guardado em algum lugar entre o coração e a memória. Posso dizer, no entanto, que foi um dos momentos mais maravilhosos da minha vida. O que quero fazer nestas linhas é agradecer.
A você, leitor, pelo carinho e pelo alcance que tenho percebido em minhas palavras. E a todos aqueles que, de alguma maneira, me ajudaram a chegar até ali e a viver uma noite tão especial. Foi mágico. E talvez a magia esteja justamente nisso: descobrir que algo que nasceu tão silenciosamente dentro de nós pode, um dia, encontrar lugar dentro de tantas outras pessoas.
Até agora, não consegui responder a todas as mensagens que recebi. Peço desculpas por isso. Tenho lido cada uma com o carinho de quem recebe uma carta antiga, daquelas que a gente não abre com pressa, porque sabe que ali dentro há alguma coisa importante. Agora, o que mais desejo é que a história de Tito encontre muitas mãos. Mãos grandes e mãozinhas de crianças. Que chegue aos quartos antes de dormir, às salas de aula, aos sofás das casas, às tardes preguiçosas de domingo.
Que desperte a imaginação dos pequenos, que lhes dê vontade de brincar, de inventar mundos, de transformar uma caixa de papelão em avião e um quintal qualquer no maior território que já existiu. Que os pais sintam vontade de ler para seus filhos. E que aqueles que não o fizerem sejam cobrados pelas próprias crianças.
Que os pequenos insistam em mais uma página, mais um capítulo, mais cinco minutinhos. Porque, quando somos crianças, cinco minutos podem ser uma eternidade; quando crescemos, descobrimos que uma vida inteira pode passar num instante. E que os adultos, ao encontrarem Tito pelo caminho, sintam aquela saudade boa de um tempo que não volta, mas que, de alguma forma, continua morando dentro da gente.
Que fechem o livro por alguns segundos e se lembrem de alguém. Que peguem o telefone, liguem para os pais, para os avós, para aquela pessoa que fez parte da infância e que talvez não ouçam há algum tempo, e comecem a conversa assim: “Você lembra que…?” E então venham as histórias. Aquele passeio, aquela brincadeira, o cheiro de uma comida, uma travessura que quase terminou em bronca, uma tarde em que parecia não haver nada de importante acontecendo.
São essas pequenas coisas que, depois de tantos anos, descobrimos serem enormes. Na infância, não sabemos que estamos construindo lembranças. Estamos apenas vivendo. É a vida que, mais tarde, nos ensina o valor de cada instante. Talvez seja esse o destino mais bonito que eu poderia desejar ao meu livro: que ele não seja apenas lido, mas que sirva de pretexto para uma conversa, um abraço, uma ligação inesperada. Que aproxime filhos e pais, netos e avós. Que ajude alguém a reencontrar uma lembrança esquecida ou a perceber que ainda há tempo de criar novas recordações.
Porque o tempo passa, caro leitor. Passa para todos nós, sem pedir licença e sem se preocupar se terminamos aquilo que começamos. As crianças crescem, os quintais mudam, as casas ganham outras cores e algumas vozes deixam de estar ao alcance dos nossos ouvidos. Mas há coisas que permanecem. Um gesto, uma frase, uma história contada tantas vezes que quase sabemos de cor. E, de vez em quando, um livro capaz de nos devolver, por alguns instantes, a quem fomos um dia.
Se um dia alguém terminar a leitura e sentir vontade de contar a própria história, terei a certeza de que Tito não ficou sozinho nas páginas do livro. Terá encontrado morada em outros quintais, em outras infâncias e em outras memórias. No fim das contas, talvez seja isso que a gente procure quando escreve: deixar um pedacinho de nós no mundo, na esperança de que alguém, em algum lugar, se reconheça nele.
Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”