Ensaio sobre a cegueira

RAPHAEL BLANES

“O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.” (Manoel de Barros)

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” A frase de José Saramago abre o Ensaio sobre a Cegueira, como um convite. Ou será um aviso? Porque a epidemia que ele narra não ataca os olhos primeiro. Ataca a atenção. E essa, convenhamos, já estava doente muito antes do romance ser escrito.

Vivemos anos estranhos. A pandemia nos obrigou a parar, a olhar para o vizinho, a redescobrir que ninguém atravessa uma crise sozinho. Por um instante, fomos capazes de enxergar o outro com uma nitidez rara. Mas a memória humana é curta, e a empatia, aparentemente, tem prazo de validade.

Hoje cultivamos novas cegueiras. Não a branca de Saramago, mas uma cegueira colorida, cheia de telas, de opiniões e de indiferença disfarçada de ocupação.

Vemos tragédias em tempo real e seguimos rolando a tela. Sócrates já dizia que “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida” e talvez seja isso. Paramos de examinar o que vemos.

Saramago escreveu algo que deveria doer em qualquer um de nós: “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que veem. Cegos que, vendo, não veem.” Não é falta de imagem. É excesso de imagem e falta de sentido.

Clarice Lispector, com sua sensibilidade cirúrgica, dizia que “ver o rosto de um homem já é ouvir uma sinfonia inteira”. Quantas sinfonias deixamos de ouvir por pressa, por comodismo, por medo de nos importar demais?

A filosofia pergunta, a psicologia explica, a espiritualidade acolhe, mas nenhuma delas nos salva se recusarmos o gesto mais simples: olhar para o outro como se ele importasse. Porque importa.

Reflexão: – A grande pergunta não é se enxergamos. É o que fazemos com o que vemos. Podemos continuar como personagens de Saramago, caminhando às cegas por ruas cheias de gente que se vê, mas não se enxerga. Ou podemos, como sugeriu o próprio autor, escolher reparar. Mais de e trinta anos depois, o romance segue atual talvez porque a cura nunca esteve nos olhos, mas na coragem de se importar.

E essa, minha amiga leitora, meu amigo leitor, é uma escolha que fazemos todos os dias.

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduado em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.

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