DRIELLI PAOLA
Às vezes imagino que, em algum lugar invisível, exista um museu dedicado exclusivamente às pessoas que já fomos. Um lugar silencioso, sem filas ou placas explicativas, onde cada sala guarda uma versão antiga de nós mesmos. Não para ser julgada. Apenas para ser lembrada. Logo na entrada estaria a criança que acreditava que os adultos tinham todas as respostas. Ela caminharia pelos corredores com os joelhos ralados e os bolsos cheios de pequenos tesouros que só faziam sentido para quem ainda era capaz de enxergar magia nas coisas simples.
Mais adiante encontraríamos o adolescente. Aquele que sentia tudo pela primeira vez e acreditava que cada alegria seria eterna e cada dor jamais teria fim. O que escreveu cartas que nunca entregou, fez promessas impossíveis e acreditou que bastava amar para que as pessoas permanecessem. Em outra sala estaria a versão de nós que sonhava com uma profissão específica, um casamento perfeito, uma cidade distante ou uma vida completamente diferente da que acabou acontecendo. Nem todos esses sonhos morreram. Alguns apenas mudaram de forma. Outros continuam ali, como fotografias de um futuro que nunca chegou.
Carl Gustav Jung dizia que a personalidade não é uma construção pronta, mas um processo contínuo. A individuação, tornar-se quem verdadeiramente somos, acontece ao longo de toda a vida. Isso significa que não existe um “eu definitivo”. Somos uma sucessão de versões, cada uma necessária para que a próxima pudesse nascer. Talvez seja esse o motivo de sentirmos estranhamento ao recordar certas fases. Lemos uma mensagem escrita há dez anos e pensamos “Como eu pude escrever isso?”. Encontramos uma fotografia antiga e quase não reconhecemos quem sorri para a câmera. Não é vergonha. É transformação!
O problema é que costumamos visitar esse museu como juízes, quando deveríamos entrar como visitantes. Julgamos a ingenuidade da criança, a impulsividade do adolescente, a insegurança do jovem adulto e os erros que cometemos. Esquecemos que aquelas versões fizeram o melhor que podiam com a consciência que possuíam naquele momento. Nenhuma delas conhecia o que sabemos hoje.
É curioso perceber que passamos boa parte da vida tentando apagar quem fomos. Escondemos antigas opiniões, renegamos fases, descartamos sonhos e sentimos vergonha das nossas vulnerabilidades. Como se amadurecer significasse destruir o passado. Mas talvez amadurecer seja justamente o contrário. É compreender que cada versão de nós deixou um presente para a seguinte.
A criança nos ensinou a imaginar. O adolescente nos ensinou a sentir. As decepções nos ensinaram a estabelecer limites. As perdas nos ensinaram a valorizar presenças. Até os fracassos, tão dolorosos quando aconteceram, acabaram moldando partes essenciais da nossa identidade. Nenhuma dessas pessoas merece ser apagada. Porque, no fundo, elas ainda vivem em nós.
A vida não nos transforma por substituição. Ela nos transforma por acúmulo. Somos feitos de todas as pessoas que já fomos. Por isso, se algum dia você visitar o seu próprio museu, faça-o com delicadeza. Pare diante de cada versão de si mesmo sem desprezo, sem culpa e sem ironia. Agradeça por cada uma delas ter suportado aquilo que hoje talvez você nem suportasse mais.
No fim das contas, não somos uma obra concluída exposta em uma única sala. Somos um museu inteiro, cheio de corredores, reformas, memórias e histórias. E talvez a maior prova de que estamos vivos seja justamente esta, continuar acrescentando novas salas, sem precisar demolir as antigas.
Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.