O que fazemos quando ninguém está olhando?

RAPHAEL BLANES

“Certifica-te de que és fator de soma para as pessoas de cujas vidas participas.’’ (Cícero)

Há uma pergunta que a filosofia grega já rondava séculos atrás, embutida numa palavra que hoje quase perdeu o peso: caráter. Vem do grego charaktér, a marca gravada a ferro. Não a superfície, a gravura. E há uma pergunta simples que separa a marca da máscara: quem somos quando ninguém está olhando?

Convivemos bem com a virtude fiscalizada. Somos gentis sob câmeras, honestos sob testemunhas, generosos sob aplausos. A plateia nos educa e não há vergonha nisso, é assim que a espécie aprendeu a viver em grupo. O problema é quando a plateia vai embora e a pergunta continua…

Devolver o troco a mais que ninguém contou. Respeitar a fila que ninguém fiscaliza. Fazer o trabalho direito quando o chefe nem vai saber, cumprir o combinado. Dizer a verdade quando a mentira seria bem mais cômoda. São gestos pequenos, quase pequenos de tão banais, mas é exatamente aí que mora o essencial: o caráter nunca se prova no grande discurso, prova-se no detalhe que ninguém pediria satisfação.

Aristóteles já dizia: somos o que fazemos repetidamente. Não são os gestos grandiosos que nos definem, mas os hábitos do dia a dia, sem plateia nem aplausos. Por isso, o verdadeiro teste de caráter não é como agimos diante de quem pode nos julgar, mas diante de quem não tem poder algum sobre nós: quem nos atende, quem nos serve, quem não pode retribuir nada. É nesses momentos, longe dos holofotes, que a máscara cai e aparece quem realmente somos.

E há algo psicologicamente curioso nisso: quando ninguém observa, quem observa é a própria consciência. E a consciência, ao contrário da opinião alheia, não se engana com facilidade. Podemos convencer o mundo de que somos alguém; convencer a nós mesmos é bem mais difícil. É por isso que a solidão, mais do que ausência, é também o único espelho sem retoque que possuímos. No serviço, na casa, na rua, no silêncio de um quarto vazio a vida real acontece nos bastidores, não no palco.

Reflexão – Porque no fim há uma cena que se repete todos os dias, em toda casa, e que ninguém filma: alguém apagando a luz do quarto, sozinho, sabendo exatamente o que fez naquele dia e conseguindo dormir em paz com isso. Não por medo de ser flagrado. Não por medo do julgamento alheio. Mas porque, naquele escuro, já não há ninguém a enganar além de si mesmo. E é ali, nesse instante sem plateia, que a gente descobre se o caráter que construiu é de verdade ou só um bom personagem.

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduado em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.

Posts similares

  • Atraso

    No dia anterior eu já havia premeditado que o tempo não seria suficiente para todos os preparos que um último dia de viagem requer. Reorganizar e a rearrumar a mala, assim como se preparar ficar duas horas sentado em um ônibus, são tarefas que demandam o mínimo de tempo e é recomendável que não sejam…

  • À primeira vista

    Convenhamos, não é com todas as pessoas que a gente se dá bem logo de cara. Quem fala que nunca olhou para uma pessoa mesmo sem nunca ter ao menos falado com ela, ou se incomodou com algo que ela fez, está mentindo. É o famoso “o santo não bateu”, como muitos gostam de justificar….

  • Carta para Meu Amor!!!

    “O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha.” (1 Coríntios 13:4) Adriana… Ontem foi Dia dos Namorados, ainda dá tempo de se declarar né?!KKK. Hoje escrevo sobre o amor, não aquele idealizado das redes sociais, mas o que se constrói na vida real, com respeito, amizade e…

  • Acumulados

    A minha relação com os livros sempre foi muito boa. Desde pequeno nunca fui daqueles que tem preguiça de ler ou que desiste de um livro pela metade (tudo bem, mas não posso afirmar que nunca abandonei uma leitura, mas não é algo comum). A minha única regra sempre foi a de que eu não…

  • Razão

    Tem coisa melhor do que soltar um grande, forte e imponente “eu te avisei”? A sensação é tão satisfatória que há inclusive quem se deixa vencer em uma primeira discussão, para depois ter o prazer de dizer que estava certo. Chamo isso de “o prazer de estar certo” e, depois de mousse de maracujá e…