O Meu Mundo Do Nosso Quintal
LUÍS ALBERTO
Tenho pensado muito sobre a infância nos últimos meses. Talvez porque, ao escrever meu segundo livro, tenha percebido que algumas lembranças nunca ficam tão distantes quanto imaginamos. Elas permanecem ali, guardadas em algum lugar dentro de nós, esperando apenas uma oportunidade para voltar. Às vezes, basta um cheiro, uma fotografia antiga, uma palavra ou até mesmo o silêncio para que sejamos transportados para um tempo em que o mundo parecia maior e a vida, mesmo com todas as dificuldades, encontrava maneiras de nos surpreender.
Foi assim que nasceu O Meu Mundo do Nosso Quintal. Não de uma ideia elaborada ou da vontade de inventar uma grande aventura. Esse livro nasceu da saudade. Da necessidade de revisitar lugares, reencontrar pessoas e compreender melhor algumas experiências que vivi quando ainda era menino.
Durante muito tempo, essas histórias permaneceram guardadas na memória, como pequenas caixas que a gente evita abrir porque sabe que, lá dentro, existem lembranças capazes de provocar sorrisos e lágrimas na mesma medida.
No centro dessa história está Tito, um menino que descobre, dentro de casa e no quintal onde vive, um universo muito maior do que aquele que seus olhos conseguem enxergar. Para ele, um pedaço de madeira pode se transformar em avião, um canto da casa pode virar hospital e uma brincadeira aparentemente simples pode render aventuras que nenhum brinquedo comprado seria capaz de proporcionar.
É a imaginação fazendo aquilo que sempre fez de melhor: transformar o pouco em muito e o cotidiano em extraordinário.
Mas não quero que você pense que este é apenas um livro sobre brincadeiras de criança. Enquanto acompanhava Tito ganhar vida nas páginas, percebi que precisava contar também sobre as pessoas que formavam o seu mundo. Afinal, quando volto às minhas próprias lembranças, descubro que os lugares são importantes, mas são as pessoas que lhes dão significado.
A Mãe, com letra maiúscula, é uma das figuras centrais dessa narrativa. Representa aquela força que nem sempre se anuncia, mas que está presente em cada gesto, em cada cuidado e em cada esforço para manter a família de pé. É o tipo de mulher que ensina muito mais pelo exemplo do que pelas palavras. Ao lado dela, a irmã, com suas próprias descobertas e sonhos, e uma presença delicada, cuja importância vai muito além do tempo em que permanece, ajudam a construir uma história em que os afetos se revelam nas coisas mais simples.
A inspiração para essa jornada veio de uma obra que marcou profundamente a literatura brasileira e atravessou gerações: O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos. Publicado originalmente em 1968, o livro me mostrou, como acontece com tantos leitores, que a infância pode ser um território de encantamento, mas também de profundas transformações. Foi a partir dessa referência que encontrei coragem para olhar para minhas próprias experiências e transformá-las em literatura.
O lançamento aconteceu nesta semana e presenta muito mais um novo livro. É abrir as portas de uma casa que existe na memória, convidar as pessoas a entrar e permitir que conheçam um pouco do menino que fui e do adulto que me tornei.
Se eu pudesse resumir este livro em uma única ideia, diria que ele é uma tentativa de preservar aquilo que o tempo não deveria levar embora. Um registro de afetos, descobertas e experiências que ajudaram a construir quem sou. Afinal, depois de tantos anos, entendi que não importa o tamanho do quintal em que crescemos, mas o tamanho do mundo que conseguimos construir dentro dele. E, se você aceitar meu convite, gostaria de lhe apresentar o mundo de Tito.
Quem sabe, ao percorrer suas páginas, você não encontre também o seu próprio quintal? Aquele lugar onde, sem que percebêssemos, fomos inteiros pela primeira vez.
Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”