A mulher que precisou provar que podia

DRIELLI PAOLA

Imagine ser impedida de tentar algo não por falta de capacidade, de conhecimento ou de preparo, mas simplesmente por ser quem você é. Imagine estudar, se dedicar, reunir todas as condições necessárias e, ainda assim, precisar convencer alguém de que você tem o direito de disputar uma oportunidade. Parece absurdo? Pois foi exatamente isso que aconteceu com Maria José de Castro Rebello Mendes, a primeira mulher a ingressar na carreira diplomática brasileira.

Em 1918, quando o mundo ainda reservava às mulheres um espaço bastante limitado, Maria José decidiu prestar um concurso para o Ministério das Relações Exteriores, o nosso conhecido Itamaraty. A decisão, que hoje poderia parecer apenas uma escolha profissional, provocou resistência. Afinal, havia quem considerasse inadequado que uma mulher ocupasse uma posição tradicionalmente masculina.

Maria José, porém, não desistiu. Com o apoio do jurista Ruy Barbosa, que defendeu seu direito de participar do concurso, conseguiu autorização para realizar as provas. E não apenas participou, mas conquistou o primeiro lugar, superando os candidatos homens.

Pense nisso por um instante. Ela não pediu que lhe dessem uma vaga por ser mulher. Pediu o direito de concorrer. E, quando finalmente teve essa oportunidade, demonstrou sua competência. Sua história poderia terminar como um belo exemplo de superação, daqueles que gostamos de contar para celebrar as conquistas femininas. Mas a realidade, como tantas vezes acontece, foi menos generosa.

Maria José ingressou na diplomacia, mas continuou enfrentando as dificuldades impostas às mulheres de sua época. Precisou reivindicar, por exemplo, o direito à licença-maternidade remunerada. Em 1934, deixou a carreira em meio às limitações profissionais e familiares que atingiam as mulheres casadas na diplomacia. Dois anos depois, morreu, aos 45 anos.

Não viveu para acompanhar as transformações que sua história ajudaria a inspirar. E nem sequer poderia imaginar todas as mulheres que, décadas mais tarde, continuariam precisando provar que mereciam ocupar os espaços que conquistaram.

Há algo que me chama a atenção nessa história, Maria José precisou demonstrar sua capacidade antes mesmo de ter a oportunidade de exercê-la. Quantas mulheres ainda vivem situações semelhantes? Quantas precisam trabalhar duas vezes mais para receber metade do reconhecimento? Quantas têm suas decisões questionadas, suas competências colocadas à prova e suas conquistas atribuídas à sorte, à ajuda de alguém ou a qualquer coisa que não seja o próprio mérito?

O mais curioso é que, quando uma mulher finalmente alcança determinado lugar, não é raro que sua presença seja tratada como exceção. Como se ela estivesse ali apesar de ser mulher, e não porque é competente. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

A história de Maria José também nos lembra que direitos conquistados não estão necessariamente protegidos para sempre. Em 1938, poucos anos depois de sua saída da carreira, um decreto voltou a impedir o ingresso de mulheres na diplomacia brasileira. A restrição só seria revertida em 1954. Sim, a porta que uma mulher ajudou a abrir foi fechada novamente. Talvez por isso seja tão importante conhecer essas histórias.

Não para viver olhando para trás, mas para compreender que aquilo que hoje consideramos natural já foi, um dia, considerado impossível. E que muitas das liberdades de que desfrutamos existem porque alguém se recusou a aceitar que as coisas deveriam permanecer como estavam.

Maria José não precisava ser a primeira mulher diplomata para ter valor. Sua capacidade já existia antes do reconhecimento oficial. O que ela conquistou foi o direito de demonstrá-la. Que a gente nunca se esqueça que o preconceito não define a capacidade de ninguém. Apenas tenta limitar até onde essa pessoa pode chegar.

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.

Posts similares