Querida pessoa, há alguns dias, tive um sonho que permaneceu comigo muito depois de eu acordar. Eu caminhava por uma mata quando encontrei um pequeno rio. Não era largo. Talvez dois ou três metros entre uma margem e outra. Ao lado, havia um indígena. Ele me chamou para atravessarmos juntos.
Achei que atravessaríamos de uma margem à outra. Mas não. Ele entrou na água e começou a caminhar pelo próprio rio. Então fui atrás dele. Enquanto seguíamos, ele me disse uma frase que, mesmo sendo um sonho, parecia carregada de verdade: “Quando terminarmos essa travessia, nenhum de nós será o mesmo. Nem você. Nem eu. Nem este rio”.
Continuamos andando. Em determinado momento, vi uma cobra na margem. Logo adiante apareceu uma onça-pintada. Era uma das criaturas mais bonitas que já vi. Forte. Elegante. Serena. Elas se olharam. O felino não queria brigar, mas a cobra queria confronto, queria ferir. O réptil atacou primeiro. A onça permaneceu imóvel por um instante. Como se esperasse exatamente aquele movimento. Só depois contra-atacou. Num único gesto, dominou a cobra.
Perguntei ao homem se ela iria comê-la. Ele respondeu com tranquilidade “Não. Há certos venenos que a gente não pode colocar para dentro de nós”. A onça largou a cobra e passou a me olhar. Assustada, perguntei se o animal poderia me caçar. E ele me respondeu que isso acontece, deveria fazer como ela, “contra-ataque”.
Olhei novamente para a onça. Naquele momento, uma sensação tomou conta de mim. Não foi medo. Foi a certeza de que, se eu quisesse, seria capaz de me defender e contra-atacar a onça, a ponto de fazer com ela o que fez com a cobra. Achei injusto imaginar que um animal tão bonito pudesse morrer. Disse isso a ele. Ele apenas respondeu “Às vezes essa é a maneira como precisamos agir. Não tenha pena das criaturas por aquilo que elas escolheram fazer”.
Naquele instante, a onça parou. Olhou diretamente para mim. Por alguns segundos, sustentamos o olhar uma da outra. Então ela simplesmente virou o corpo e desapareceu entre as árvores. Seguimos caminhando.
A água foi ficando cada vez mais funda. Chegou um momento em que eu já não conseguia mais tocar o chão. Disse que estava com medo. Ele pediu que eu segurasse em seu ombro. Foi assim que continuamos. Até que, algum tempo depois, senti meu corpo pesado demais. Eu já não conseguia seguir daquela forma.
Foi quando ele me disse que precisaria nadar sozinha. Respirei fundo. Respondi que tentaria, mas pedi que ele continuasse ao meu lado. Ele sorriu e me disse “Eu estarei aqui. Você precisa usar seus próprios braços, mas não vou abandonar você”. Soltei seu ombro. Comecei a nadar. Quando olhei para trás, vi muitos outros indígenas nas margens do rio. Apenas observavam nossa travessia em silêncio.
E continuei nadando. Quando acordei, fiquei pensando em como alguns sonhos parecem nos visitar não para serem entendidos, mas para serem lembrados. Não sei quem era aquele indígena. Não sei por que a cobra precisou aparecer. Não sei por que a onça esperou o momento exato para reagir. Não sei por que senti que se precisasse, poderia enfrentar até mesma a onça. Mas algumas frases continuam ecoando dentro de mim.
Há venenos que não devemos colocar para dentro de nós. Existem batalhas que exigem reação, não submissão. Há momentos em que alguém nos sustenta para que aprendamos a nadar sozinhos. E talvez a mais bonita de todas as lembranças seja aquela primeira frase, dita antes mesmo de entrarmos na água, toda travessia transforma quem a atravessa.
Talvez seja por isso que algumas pessoas não consigam voltar sendo as mesmas. E talvez isso seja uma das coisas mais bonitas da vida.
Com carinho, alguém que acordou diferente depois de atravessar um rio que existia apenas em um sonho.
Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.