O quatro
EDITORIAL
A assertiva de que um orçamento municipal, por si só, é suficiente para sustentar os 365 dias do ano na administração de uma cidade não chega nem perto da realidade vivida por governantes e governados. Despesas e receitas estimadas em um exercício para vigorar no seguinte tornaram-se apenas um instrumento que oferece uma noção, até certo ponto vaga, das reais necessidades para atender ao mínimo das demandas da sociedade.
Esse retrato, a princípio preocupante, ganha contornos ainda mais graves quando a expectativa para a economia brasileira em 2027 é pouco animadora. Especialistas apontam um cenário de dificuldades, com uma dívida pública elevada e sem que se vislumbre, até o momento, uma política consistente de contenção de gastos capaz de estancar essa sangria. O quadro se agravou nos meses que antecederam as eleições, com o chamado pacotaço de bondades do atual presidente, em mais uma tentativa de conquistar apoio popular na busca pela reeleição.
Os municípios poderão começar o novo ano de pires na mão. Correr atrás de deputados e senadores em busca de emendas parlamentares será não apenas uma prova de resistência, mas também de muita fé na possibilidade de que os recursos da esfera federal cheguem efetivamente ao cidadão, ávido por melhorias em sua cidade.
Em Mairiporã, o quadro não é diferente. O prefeito, que conquistou milhões de reais em recursos ao longo dos quatro primeiros anos de governo, mas assistiu a uma queda acentuada nos dois primeiros anos do segundo mandato, terá de recorrer a novas estratégias para tentar assegurar a chegada de verbas que ajudem a manter o ritmo de desenvolvimento municipal.
A maior preocupação dos prefeitos, em geral, está concentrada na área da Saúde e na capacidade de manter em funcionamento as unidades do SUS e os hospitais. Sem recursos adicionais provenientes de outras esferas de governo, torna-se extremamente difícil garantir atendimento minimamente digno à população.
A turma do atual presidente, e ele próprio, ainda vive o clima de ressaca (sem qualquer alusão ao mandatário), que só deverá terminar quando o novo ano der o ar da graça. A partir daí, o gosto amargo que a população já experimenta há algum tempo poderá dar o tom dos primeiros meses do novo ciclo político.
Não há, neste momento, motivos consistentes para um otimismo em relação aos próximos quatro anos. A preocupação alcança o empresariado brasileiro, os investidores estrangeiros, os políticos e, principalmente, as autoridades econômicas que integram o próprio governo. A falta de previsibilidade e a ausência de sinais claros de recuperação acabam comprometendo a confiança de quem produz, investe e gera empregos.
O problema é que, quando a conta não fecha na esfera federal, os reflexos acabam chegando às cidades, justamente onde a população procura respostas mais imediatas para suas necessidades. Prefeitos não têm a possibilidade de simplesmente suspender serviços ou adiar indefinidamente os investimentos. A cobrança continua, independentemente da disponibilidade de caixa ou da disposição do governo federal em liberar recursos.
Neste cenário de apreensão geral, o que se espera é que o Lula-4 não tenha deixado o País de quatro.