Obras concluídas, ou histórias em construção?
RAPHAEL BLANES
“Todo o mundo é composto de mudança.” (Camões)
No último texto, falei de três mudanças. Agora quero meditar com você sobre o mudar e o tempo.
E o tempo, convenhamos, anda apressado. Passamos da carta escrita à mão para a máquina de escrever, depois para o fax, e hoje o WhatsApp já quase pensa e responde por nós. Em poucas décadas, a espera do carteiro virou um “visto por último” que nos cobra resposta em minutos.
O mundo mudou de endereço várias vezes, mas a gente continua dizendo: “Eu sou assim mesmo, não vou mudar agora.” A frase tem cara de autoconhecimento, mas muitas vezes é só medo vestido de maturidade.
Cortella diz que gente não nasce pronta e vai se gastando; nasce não-pronta e vai se fazendo. Eu diria: vai se refazendo. Aceitamos que a tecnologia mude sozinha, mas achamos que nós somos de granito. Ninguém acorda aos 20, aos 40 ou aos 60 com um certificado de “pessoa concluída”.
Mudar não depende de idade. Tem gente que, aos 25, já fala como quem encerrou o expediente da própria evolução, enquanto tem senhora de 80 matriculada em curso de inglês, com a lição de casa em dia. Passamos anos acumulando experiência e achamos que isso equivale a ter todas as respostas. Na maioria das vezes, ela só nos ensina a fazer perguntas melhores.
Mudar não é renegar a própria história. É perceber que certas ideias que serviram ontem não cabem mais hoje. É pedir desculpas àquele irmão com quem você não fala há anos por causa de uma discussão que nem lembra direito. É admitir “eu estava errado” sem perder o rei na barriga. É marcar o exame que você adia desde o ano passado, ou sair para caminhar mesmo depois de jurar, em janeiro, que agora ia.
Aos mais jovens, um recado curto: não confundam “ainda estou me descobrindo” com “não preciso mudar nada”. Ser jovem é ter tempo, mas tempo só rende quando a gente começa. E a quem já tem mais quilômetros rodados kkk, o mesmo vale: ainda dá tempo, e a estrada à frente também conta.
O perigo está em transformar o passado em cela. Usamos o “sempre fui assim” como álibi para não tentar e a opinião alheia como sentença sobre o que somos capazes de fazer.
Reflexão final – Acredito que a verdadeira sabedoria não seja chegar a certa idade convencida de que já sabemos quem somos, mas guardar a humildade de descobrir quem ainda podemos ser. Enquanto houver vida, haverá chance de aprender, reparar e recomeçar.
Não somos obras concluídas. Somos histórias em construção.
Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduado em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.