Quando todo mundo precisa ter uma opinião

RAPHAEL BLANES

“A opinião é a rainha do mundo.” (Blaise Pascal)

Outro dia, em uma conversa sobre um assunto que havia tomado conta das redes sociais, percebi algo curioso: quase todos já tinham uma opinião formada. Uns defendiam com convicção, outros condenavam com a mesma certeza. E eu me perguntei: será que realmente sabemos o suficiente para ter tanta certeza?

Confesso que, por alguns segundos, também senti aquela necessidade de me posicionar. Afinal, hoje parece estranho dizer “não sei” quando todo mundo já sabe — ou acredita que sabe. Antigamente, para falar sobre um assunto era preciso conhecê-lo. Hoje, basta ter internet.

Uma notícia surge, alguém famoso se envolve em uma polêmica, um político toma uma decisão, um casal termina… e, antes mesmo de entendermos o que aconteceu, já surgem milhares de especialistas de plantão. Uns condenam, outros defendem, muitos compartilham. Quase ninguém espera para compreender. Parece que não ter opinião virou uma espécie de defeito.

Nas redes sociais, o silêncio pode parecer omissão. Se não escolhemos um lado, somos cobrados. Se dizemos “não sei”, parece que perdemos espaço na conversa. Mas será que precisamos mesmo ter uma opinião sobre tudo?

Como podemos explicar parte desse comportamento? O ser humano precisa pertencer. Concordar com o grupo traz segurança, enquanto discordar pode nos fazer sentir isolados. É mais confortável repetir aquilo que todos dizem do que admitir que ainda estamos tentando compreender.

Há séculos, a filosofia alerta para os perigos das certezas apressadas. Sócrates fez da pergunta uma ferramenta de conhecimento. Talvez porque soubesse algo que esquecemos: nem toda pergunta precisa de uma resposta imediata.

Hoje, a velocidade parece ter vencido a reflexão.

Julgamos antes de ouvir. Compartilhamos antes de verificar. E transformamos pessoas em personagens de uma história que conhecemos por poucos segundos de vídeo ou algumas linhas de uma publicação. Talvez maturidade não seja ter uma opinião sobre tudo, mas saber sobre o que realmente vale a pena ter uma opinião.

Há assuntos que pedem posicionamento. Outros pedem estudo. Alguns pedem escuta. E existem situações em que a resposta mais honesta é simplesmente: “Eu não sei o suficiente para falar sobre isso. ” Isso não é ignorância. É humildade.

Reflexão – Em uma época em que todos querem ser ouvidos, talvez uma das maiores demonstrações de inteligência seja aprender a escutar. Porque ter opinião é fácil. Difícil mesmo é reconhecer os limites da própria opinião e ter coragem de mudar de ideia.

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduado em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.

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