Saudades de Lito Sousa

LUÍS ALBERTO

Há notícias que a gente lê, relê e, ainda assim, custa a acreditar. A partida de Lito, do Aviões e Músicas, foi uma dessas notícias que me atravessaram de um jeito diferente. Talvez porque eu o acompanhe, de alguma maneira, desde 2018. Talvez porque, ao longo desses anos, mesmo sem uma convivência pessoal, a gente acaba criando uma espécie de familiaridade com pessoas que entram em nossa casa por meio da música, dos vídeos, das entrevistas e das histórias que compartilham. E, de repente, aquela pessoa já não está mais aqui.

Estive no velório e confesso que, mesmo estando ali, diante de uma realidade que não permite argumentos, havia dentro de mim uma sensação de incredulidade. Eu olhava e não conseguia acreditar. É como se a cabeça soubesse o que aconteceu, mas o coração ainda estivesse tentando compreender. Algumas ausências parecem grandes demais para caber na nossa compreensão. E essa foi uma delas.

O que mais me fez pensar foi justamente a sensação de que estava tudo bem. Uma carreira bem-sucedida, uma família, um filho de apenas sete anos, uma esposa guerreira, empresas que, segundo números divulgados pela revista Exame, apresentavam um faturamento expressivo, milhões de pessoas acompanhando seu trabalho e, somente no YouTube, mais de quatro milhões de inscritos. Havia conquistas, projetos, sonhos, trabalho e, certamente, muitos planos pela frente. A vida estava acontecendo.

E talvez seja exatamente isso que mais assuste. A vida não nos avisa quando será o último capítulo. Nós fazemos planos como se tivéssemos certeza de que haverá amanhã. Deixamos aquela viagem para depois, aquele projeto para depois, aquela conversa para depois, aquele abraço para depois. Dizemos que ainda não é o momento, que precisamos trabalhar mais um pouco, organizar a vida, ganhar mais dinheiro, esperar uma oportunidade melhor. Só que a vida não trabalha com o nosso calendário.

Existem coisas que a gente simplesmente não entende. E, diante de algumas perdas, talvez nem precise entender. Até agora, olho para tudo isso e não acredito. Sinto uma ausência como se fosse de alguém da minha própria família, e fico imaginando o tamanho dessa dor para aqueles que realmente conviviam com ele, para sua esposa, para seu filho, para seus pais, irmãos, amigos e para todos aqueles que tiveram a oportunidade de dividir a vida de perto. Para quem acompanhava de longe, fica a tristeza. Para quem amava de perto, fica um mundo inteiro tentando aprender a continuar sem aquela presença.

A morte tem essa capacidade de nos colocar diante de um espelho. Quando alguém parte, inevitavelmente começamos a olhar para a nossa própria caminhada e perguntar o que estamos fazendo com o tempo que recebemos. Quantas coisas ainda estamos adiando? Quantos sonhos continuam guardados porque acreditamos que teremos tempo suficiente? Quantas vezes deixamos de dizer “eu te amo”, de visitar alguém, de abraçar, de pedir desculpas, de começar um projeto ou simplesmente de aproveitar um momento porque estamos sempre esperando a hora certa?

Talvez a grande reflexão que fica para mim seja justamente essa: a vida é breve. Muito mais breve do que gostamos de admitir. E, por isso, precisamos aprender a viver enquanto ainda há tempo. Precisamos realizar nossos sonhos, construir nossa história, cuidar das pessoas que amamos e não ter vergonha de correr atrás daquilo que faz nosso coração acreditar que vale a pena.

Que a gente, caro leitor, siga em frente, portanto. Que tenha coragem para realizar, humildade para amar e sabedoria para compreender que o tempo não volta. Que possamos construir um legado enquanto caminhamos, não pensando apenas no que vamos deixar quando partirmos, mas principalmente naquilo que estamos deixando nas pessoas enquanto ainda estamos aqui. Porque a vida é breve, mas pode ser imensa quando aquilo que fazemos dela continua vivendo no coração de quem ficou.

Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”

 

 

Posts similares