O paradoxo do depois
RAPHAEL BLANES
“Matamos o tempo; o tempo nos enterra” (Machado de Assis)
Há uma frase que aprendemos cedo e repetimos a vida inteira, convencidos de que é sabedoria e não covardia disfarçada: “depois eu faço”. Depois eu ligo, depois eu visito, depois eu peço desculpas, depois eu digo que amo. O “depois” tem essa vantagem cruel de parecer sempre disponível como se fosse uma gaveta que nunca se tranca, um trem que sempre passa de novo.
Sêneca já avisava, há quase dois mil anos, em Sobre a Brevidade da Vida, que não é que tenhamos pouco tempo, é que desperdiçamos muito dele. Os antigos, ao que parece, já colecionavam a mesma desculpa que hoje mandamos por WhatsApp.
O problema é simples e devastador: o futuro não assina contrato com ninguém. A vida tem o mau hábito de não avisar quando algo será a última vez a última ligação, o último aniversário em família, o último “até amanhã” dito sem pressa. Se soubéssemos que era a última vez, prestaríamos atenção. Mas a vida, com sua elegância cruel, nunca manda aviso prévio.
Aprendi isso, confesso, do jeito mais chato possível: tarde. Passei anos adiando conversas por cansaço, visitas por falta de tempo, e afetos por achar que sempre haveria uma ocasião mais adequada um domingo mais livre, um mês menos corrido.
Descobri, como quase todo mundo descobre, que a ocasião mais adequada raramente chega sozinha; ou a gente a cria hoje, ou ela simplesmente não vem. De uns tempos para cá, mudei um hábito pequeno, mas teimoso: paro de esperar o momento ideal para dizer o que sinto ou fazer o que devia. Ainda falho e bastante, mas falho menos do que antes, e isso já é alguma coisa.Saint-Exupéry, no Pequeno Príncipe, resume o que Sêneca já sabia com outra elegância: “foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.”
O paradoxo é justamente esse: achamos que estamos ganhando tempo ao adiar, quando na verdade estamos apenas cobrando juros de nós mesmos, e o presente sempre paga a conta.
Passamos a infância esperando crescer, a juventude esperando estabilidade, a vida adulta esperando férias, e a maturidade esperando a aposentadoria como se a existência fosse uma sala de espera bem decorada. Não se trata de abandonar o planejamento; poupar é prudência, projetar é necessário. Mas há uma diferença enorme entre preparar o amanhã e sacrificar o hoje em seu altar. Algumas coisas, de fato, podem esperar. Outras não.
Reflexão – Um abraço pode ser dado hoje. Um pedido de desculpas pode começar hoje. Aquela pessoa que espera sua ligação talvez não precise de grandes gestos só que o telefone toque. No fim, o “depois” é um lugar curioso: parece sempre distante, mas, quando finalmente chega, já se chama “hoje”.
E o hoje, ao contrário do amanhã, essa promessa tão bem escrita, é a única parte da vida que já se cumpriu.
Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduado em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.