Que tipo de sociedade estamos dispostos a construir?
DRIELLI PAOLA
Querida pessoa, gosto de pensar que os valores de uma pessoa não se revelam apenas naquilo que ela diz acreditar, mas, principalmente, naquilo que está disposta a defender quando a situação não lhe diz respeito diretamente. É relativamente fácil falar em liberdade quando ninguém tenta limitar a nossa. Defender igualdade quando não somos nós que precisamos renunciar a privilégios. Falar em respeito quando estamos diante de alguém que pensa como nós. Difícil, de verdade, é sustentar esses princípios quando eles exigem que olhemos para além do nosso próprio mundo.
Liberdade, igualdade e fraternidade são ideias antigas, presentes em discursos, livros e documentos históricos. Ainda assim, parecem conceitos que precisamos reaprender constantemente. Afinal, que liberdade é essa que só importa quando beneficia a nós mesmos? Que igualdade existe quando algumas pessoas precisam lutar diariamente para ter acesso aos mesmos direitos? E que fraternidade estamos praticando quando a nossa solidariedade termina exatamente onde começam as diferenças?
Talvez seja por isso que acredito tanto na importância de uma sociedade que não confunda privilégios com direitos, nem trate a dignidade humana como algo que pode ser concedido ou retirado conforme a conveniência.
Isso vale, inclusive e sobretudo, quando falamos das mulheres. Não existe igualdade verdadeira enquanto a autonomia feminina continuar sendo tratada como uma ameaça, enquanto a liberdade de uma mulher precisar ser justificada ou enquanto tantas ainda tiverem de provar que são capazes de decidir sobre a própria vida.
Feminismo não é desejar que mulheres sejam superiores aos homens. É compreender que não deveriam ser consideradas inferiores, nem precisar pedir licença para ocupar os espaços que lhes pertencem.
Também não consigo pensar em igualdade sem falar de racismo. Dizer que todas as pessoas são iguais perante a lei é fundamental, mas não basta para fazer desaparecer desigualdades construídas ao longo de gerações. Combater o racismo exige reconhecer que ele existe, questionar práticas discriminatórias e compreender que o silêncio, muitas vezes, preserva justamente aquilo que deveria ser transformado.
E há algo igualmente importante quando falamos de religião: a liberdade de acreditar precisa caminhar ao lado da liberdade de não acreditar. Um Estado laico não é um Estado contra a fé. É aquele que não escolhe uma crença oficial para determinar os direitos de todos. É a garantia de que cada pessoa possa viver sua espiritualidade, ou a ausência dela, sem que isso defina seu lugar na sociedade.
No fundo, todas essas questões nos levam ao mesmo ponto, o tipo de sociedade que estamos dispostos a construir.
Uma sociedade em que a pobreza não seja motivo de humilhação, em que a diferença não seja tratada como ameaça, em que a orientação religiosa não determine direitos e em que a liberdade de expressão não seja confundida com uma autorização para desumanizar o outro.
Isso não significa que precisamos concordar sobre tudo. A democracia pressupõe divergências, debates e diferentes maneiras de compreender o mundo. Mas existe uma diferença entre discordar de alguém e acreditar que essa pessoa merece menos direitos por pensar, viver ou existir de maneira diferente da nossa. Não precisamos ter a mesma história, a mesma fé ou as mesmas convicções para reconhecer a dignidade uns dos outros.
No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja em quem acreditamos, mas quais princípios estamos dispostos a preservar, inclusive quando isso contraria nossas preferências. Porque os nossos valores não deveriam mudar de acordo com quem está sendo protegido, prejudicado ou colocado à margem.
Uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela em que alguns podem tudo, mas aquela em que ninguém precisa renunciar a própria dignidade para que os outros se sintam superiores.
E é essa sociedade, com mais justiça, igualdade e humanidade, que ainda vale a pena construir.
Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.