Os dias comuns
VICTORIA CONTRERAS
A gente passa boa parte da vida correndo atrás de prazos que nós mesmos criamos, encaixando a rotina em caixas estanques e achando que produtividade é sinônimo de exaustão, mas, de vez em quando, a própria realidade nos obriga a apertar o botão de pausa para lembrar que a gente não é máquina de fazer boleto ou de cumprir prazos ad infinitum.
Existe uma exigência velada, quase cruel, que ronda os nossos dias e nos convence de que parar para respirar é sinônimo de improdutividade, transformando o cansaço crônico em uma espécie de medalha de honra que ostentamos sem querer enquanto atravessamos o trânsito da cidade e tentamos dar conta de uma lista interminável de pendências que parecem se regenerar sozinhas.
A gente acorda já calculando o tempo de deslocamento, mentalizando os compromissos que se atropelam na agenda e carregando aquela sensação constante de que o dia é sempre curto demais para caber tanta urgência criada.
O cotidiano tem essa mania curiosa de ser perfeitamente monótono e implacavelmente exigente ao mesmo tempo, cobrando eficiência máxima de quem muitas vezes só queria um momento de silêncio absoluto para reorganizar os próprios pensamentos longe das telas e das cobranças externas.
É nesse ritmo acelerado que o piloto automático deixa de ser uma escolha consciente e passa a ser o único escudo possível contra o caos, fazendo com que a gente atravesse semanas inteiras operando no automático, respondendo mensagens no reflexo e adiando o próprio descanso para um futuro hipotético que nunca chega de verdade.
No fim das contas, a vida real não está esperando a próxima grande conquista ou a próxima segunda-feira perfeita para começar a valer a pena, porque ela é exatamente isso que acontece agora, sem glamour nem edição, entre uma xícara de café frio e a coragem diária de fechar a porta do escritório sabendo que amanhã o mundo vai estar lá de novo, esperando, mas que a nossa paz não precisa ser o preço pago para mantê-lo girando.
*Victoria Contreras é advogada e servidora pública