A história tem dessas coisas

DRIELLI PAOLA

Existem algumas informações que, quando a gente ouve pela primeira vez, parecem mentira. Daquelas que fazem a gente parar, franzir a testa e pensar “não, isso não pode estar certo”. Mas está. E uma das coisas mais curiosas sobre a história é descobrir que nossa noção de tempo é completamente diferente da realidade.

Cleópatra, por exemplo, viveu mais perto de nós do que da construção da Grande Pirâmide de Gizé. A Cleópatra dos livros de História viveu por volta de 69 a.C. A Grande Pirâmide foi construída por volta de 2.500 a.C. Ou seja, quando Cleópatra existiu, as pirâmides já eram antiguidades havia milhares de anos. Na verdade, ela está cronologicamente mais próxima da invenção do smartphone do que da construção da Grande Pirâmide.

Quando pensamos em “Egito Antigo”, nosso cérebro costuma colocar tudo no mesmo lugar, como se faraós, pirâmides e Cleópatra tivessem acontecido praticamente ao mesmo tempo. Não aconteceu. E tem mais. Os mamutes ainda existiam quando as pirâmides foram construídas. Enquanto seres humanos erguiam aquelas enormes estruturas de pedra no Egito, ainda havia mamutes caminhando pelo planeta. É verdade que não eram exatamente os mesmos mamutes das imagens que costumamos imaginar, e suas últimas populações sobreviveram em pequenas regiões isoladas por muito tempo. Ainda assim, a ideia de que humanos construíam pirâmides enquanto mamutes ainda existiam parece saída de um filme, mas é História.

Outra comparação que parece impossível é a de que a Universidade de Oxford já existia quando os astecas ainda nem tinham fundado sua capital. Há registros de ensino em Oxford desde 1096, enquanto Tenochtitlán só foi fundada por volta de 1325. Isso significa que, quando a grande cidade asteca começou a ser construída, estudantes já frequentavam a universidade havia mais de dois séculos.

Mais uma informação que parece loucura, a última execução pública na França aconteceu quando o primeiro Star Wars já havia sido lançado. A pena de morte só foi abolida na França em 1981, e a última execução por guilhotina ocorreu em 1977. Star Wars: Uma Nova Esperança havia chegado aos cinemas naquele mesmo ano. É aquele tipo de informação que faz a gente pensar “como assim essas duas coisas aconteceram ao mesmo tempo?”.

É justamente isso que me fascina. A gente costuma imaginar o passado como um lugar distante, quase como se tudo tivesse acontecido em uma única época chamada “antigamente”. Só que o passado também teve seus “ontens”. Enquanto alguém nascia, outra pessoa morria. Enquanto uma cidade era construída, outra já estava em ruínas. Enquanto alguém inventava alguma coisa, em outro lugar do mundo alguém ainda nem sabia que aquela civilização existia.

A História não aconteceu de uma vez. Ela foi acontecendo aos poucos, em diferentes lugares, com pessoas que viveram suas próprias rotinas sem fazer ideia de que, muitos anos depois, alguém olharia para aquele tempo e tentaria entender como tudo aconteceu. E talvez a parte mais curiosa da história seja que nós também estamos dentro dela. O que hoje parece comum, amanhã pode parecer inacreditável. Uma tecnologia, um costume, uma descoberta, uma maneira de viver que nem percebemos que está mudando.

Talvez, daqui a alguns séculos, alguém olhe para o nosso tempo e diga “eles realmente viviam assim?”. E alguém provavelmente responderá “viviam, parece mentira, mas é verdade.”

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.

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