Arrasta pra cima que eu vou te contar o segredo

VICTORIA CONTRERAS

Abra qualquer rede social em uma manhã comum de semana e você vai encontrar, entre um story e outro de amigos, ao menos um desse personagem: um jovem na porta de um carro esportivo, com o mar ao fundo, garantindo que, com “quinze minutos por dia e um método secreto”, você também vai faturar múltiplos dígitos. A estética do sucesso instantâneo virou a maior mercadoria da internet moderna.

Nos bastidores desse suposto império, porém, o cenário tem mudado drasticamente. Neste mês, a exemplo, uma operação policial prendeu o influenciador Eduardo Razuk, investigado por lavagem de dinheiro e exploração ilegal de loterias por meio de rifas não autorizadas. O resultado: 22 veículos de luxo apreendidos (entre eles Ferrari, Lamborghini e Porsche, avaliados em cerca de R$ 10 milhões) e aproximadamente R$ 500 milhões bloqueados em contas dos investigados.

Não é um caso isolado: nos últimos meses, uma lista crescente de nomes conhecidos da internet tem se tornado alvo de operações por crimes financeiros, do “golpe do PIX” a esquemas de criptomoedas e apostas disfarçadas de investimento e o castelo de cartas, aos poucos, tem desabado.

A grande questão que fica não é apenas o vexame dos influenciadores, mas o rastro de destruição financeira e emocional deixado em milhares de cidadãos comuns que acreditaram no conto de fadas da ascensão social pela internet.

Para o trabalhador que acorda cedo, pega transporte lotado e tenta equilibrar as contas no fim do mês, a promessa de dinheiro fácil funciona como alívio psicológico em tempos difíceis, e é perfeitamente compreensível o desejo de escapar da escassez.

O problema é que a linha entre esperança e o golpe ficou perigosamente tênue na internet. O que se vende como “educação financeira” ou “fórmula da liberdade” muitas vezes não passa de pirâmide disfarçada, infoproduto vazio ou propaganda de plataforma de apostas não regulamentada.

Do ponto de vista jurídico, como eu já trouxe em outro artigo, quem divulga esse tipo de ilusão PODE responder tanto quanto quem cria o esquema.

Na esfera penal, os enquadramentos mais comuns são o estelionato (enganar alguém para obter vantagem indevida), a lavagem de dinheiro (disfarçar a origem ilícita dos valores movimentados) e a propaganda enganosa (anunciar algo de forma capaz de induzir o consumidor a erro). Dependendo da estrutura do esquema, pode configurar ainda organização ou associação criminosa.

A internet não é, e nunca será, terra sem lei. Por mais que muitos tentem usá-la como um cassino sem fiscalização, casos como o de Razuk servem de alerta: o único enriquecimento garantido que existe on-line é, infelizmente, o de quem vende a ilusão para quem precisa desesperadamente dela.

*Victoria Contreras é advogada e servidora pública