Quando foi que começamos a ter tantas senhas?

DRIELLI PAOLA

Não sei exatamente quando aconteceu, mas em algum momento da vida eu passei a ter mais senhas do que consigo lembrar. Senha do banco. Do cartão. Do e-mail. Do celular. Do computador. Do aplicativo de música. Do streaming. Do Wi-Fi. Do aplicativo que usei uma única vez para comprar alguma coisa e que, misteriosamente, agora exige uma senha com letra maiúscula, número, caractere especial e, provavelmente, três documentos com firma reconhecida.

A tecnologia prometeu facilitar a nossa vida. Em alguns aspectos, cumpriu. Em outros, decidiu testar nossa memória.

Hoje, uma simples ação pode exigir uma pequena investigação sobre a própria identidade. “Digite sua senha.” Digito uma. “Senha incorreta.” Tento outra. “Você esqueceu sua senha?” Talvez. “Enviaremos um código para seu e-mail.” Qual e-mail? “Digite o código enviado ao seu telefone.” Onde está meu telefone? “Crie uma nova senha.” Mas eu já tinha uma! E, então, o momento constrangedor em que ele informa “Sua nova senha não pode ser igual às cinco anteriores.” Cinco? Eu mal lembro da última.

Interessante é que criamos senhas justamente para proteger aquilo que é importante, mas acabamos precisando de tanta proteção que, às vezes, parece que estamos tentando proteger nossa própria memória de nós mesmos. E então surgiram os gerenciadores de senha, que prometem guardar todas elas para nós. É claro que, para acessar o gerenciador de senhas, precisamos de uma senha. Uma senha para lembrar todas as senhas. É quase poético.

Também existem aquelas pessoas que têm uma senha para tudo. Uma única senha, usada há anos, provavelmente desde a época em que a internet fazia aquele barulho de telefone ocupado.

Essas pessoas vivem perigosamente, mas vivem em paz. Outras têm uma lógica própria. Uma senha para banco. Outra para trabalho. Outra para redes sociais. Outra para compras. E uma completamente aleatória que ninguém entende, nem mesmo quem criou.

O problema é que as senhas não protegem apenas contas. Elas passaram a guardar pedaços da nossa vida. Fotos. Conversas. Documentos. Trabalho. Dinheiro. Memórias. Talvez por isso seja tão estranho perceber como algo tão pequeno, uma sequência de letras e números, ganhou tanto poder sobre nós.

E existe uma ironia nisso tudo. Passamos boa parte da vida tentando lembrar senhas para provar que somos nós mesmos. Como se precisássemos constantemente responder à pergunta “Você tem certeza de que é você?”. E o pior, “prove que você não é um robô”. Às vezes, penso que seria mais simples se a tecnologia aceitasse apenas uma resposta, “Sim. Sou eu. Pode deixar entrar.”

Mas, enquanto isso não acontece, seguimos criando senhas cada vez mais complicadas, anotando em lugares secretos, esquecendo, redefinindo e recebendo códigos por SMS. E talvez a maior prova de que envelhecemos não seja esquecer nomes, datas ou compromissos. Talvez seja chegar ao ponto em que o celular nos pergunta se queremos salvar uma senha e responder, com alívio, “por favor, salve.

Porque, no fundo, talvez seja isso que a tecnologia moderna tenha feito conosco, transformou nossa vida em uma sucessão de portas digitais e, aparentemente, o maior desafio agora é lembrar qual chave abre cada uma.

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.

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