No ar, mais um campeão de audiência…

EDITORIAL

Adentramos o período do ano em que o programa obrigatório de se ver, na mais literal acepção do termo, é o Horário Eleitoral Gratuito, em todas as TVs abertas e também no rádio. Um verdadeiro campeão de audiência, pois se trata de uma imposição legal, mas que facilmente pode ser considerada, dependendo da perspectiva, imoral.

Os velhos candidatos de sempre – e não se trata apenas do Senado, que concentra o maior número de políticos idosos por metro quadrado – vão estar nas nossas casas diariamente, em dois horários, para repetir as mesmas baboseiras ditas em 2022: melhorar a saúde, conter a criminalidade, gerar mais empregos, acabar com a inflação, dar uma nova cara à Educação, entregar estradas em boas condições de tráfego, ampliar a oferta de lazer e cultura, enfim, aquele receituário que nunca sai de moda nas campanhas eleitorais.

Também os neófitos, que tentam uma “boquinha” nas casas legislativas, vão dar o ar da graça na sua sala, com propostas mirabolantes e o slogan manjado de que são o futuro da política, sem vícios e desejosos de ver o país crescer e a qualidade de vida da população melhorar.

Resumo dessa ópera bufa: mais do mesmo e novatos que, uma vez eleitos, ficam velhos da noite para o dia. Pobre Brasil!

Um certo humorista brasileiro, em um de seus shows, ao contar uma piada sobre bichos, disse que eles conversam, e a isso é dado o nome de “fábula”. E exemplificou o que vem a ser uma fábula: “são animais que falam e que, a cada quadriênio, aparecem no horário eleitoral gratuito da TV”. Melhor definição, se existe, ainda não foi dada a conhecer a quem quer que seja.

Voltando ao “campeão de audiência”, a fórmula, apesar de esgotada, ainda alcança, infelizmente, boa parte dos incautos deste país. E isso nos lembra a frase lapidar de Nelson Rodrigues: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.”

Àqueles que, ao longo do tempo, se sentiram abusados pelos políticos, restam algumas alternativas, como filmes, séries, programas sobre gastronomia, pesca, perda de peso, realities ou, aos que querem distância disso tudo, ouvir boa música, ler um bom livro ou, ainda, dormir mais cedo.

Tudo vale quando a ordem é fugir de “mais um campeão de audiência”.

E, para quem não conseguir escapar, fica ao menos uma recomendação: assistir com o controle remoto por perto e a memória ainda mais próxima. Afinal, entre tantas promessas recicladas, talvez a melhor maneira de enfrentar o espetáculo seja lembrar o que foi prometido na eleição passada – e conferir, antes de acreditar novamente, o que efetivamente foi cumprido.

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