Armazém Social “Dona Zô”
LUÍS ALBERTO
Pois é, a Câmara Municipal tramitou e aprovou por unanimidade uma propositura que vai nomear o futuro armazém social, com o nome da minha Mãe. Nome, estou exagerando, já que ela não gostava de ser chamada pelo próprio nome que não tem nada de feio. Minha Mãe se chamava Antônia, mas gostava mesmo era de ser: Zoraide. Dona Zô deixou muita saudade quando partiu em 2022. A gente nunca quer se despedir das pessoas que amamos. Se você, caro leitor, sabe o que é saudade de Mãe; então entende perfeitamente o que estou dizendo aqui.
Antônia Cardoso de Moraes, nasceu em Pedra Bela SP em 1945, mas veio para a Vila de Juquery muito cedo, pois nossa família veio trabalhar nas antigas olarias do bairro Rio Abaixo, onde hoje está a represa Paiva Castro. Bateu tijolos nesse chão e filha caçula, perdeu a mãe quando era criança. Minha avó se chamava Lázara e meu avô José Pedro. Foi trabalhar na casa do Sr. Eurípedes e da Dona Preciosa Pisaneschi. Foi criada e ajudou a criar os filhos do casal: Maria Amélia, Maria Auxiliadora e Eurípedes Júnior.
Minha Mãe criou sozinha a mim e minha irmã Patrícia. Teve pouca formação e muito trabalhadora, fazia faxina em casas de famílias na cidade até se efetivar na Prefeitura de Mairiporã. Atuou por muitos anos na Secretaria de Educação, especialmente divisão de merenda escolar. Muito querida por todos, era ótima cozinheira e profissional. Se aposentou em 2005 depois de muitos anos dedicados ao serviço público. Mãe louca pelos filhos, amorosa, profissional competente e avó extraordinariamente apaixonada pelos netos: Ana Carolina, Dilonei Neto, João Pedro, Rafaela e Beatriz. Dona Zô não teve tempo de conhecer a Maria Helena. Minha pequena vai completar um ano e nove meses neste mês de setembro e saberá quão maravilhosa foi sua avó.
Quanto ao armazém social, trata-se de uma importante política pública de segurança alimentar, pensada para atender famílias em situação de vulnerabilidade social. Mas não se trata simplesmente de receber uma cesta pronta. A proposta é muito mais bonita e, para mim, muito mais humana: permitir que cada família tenha a possibilidade de escolher os alimentos e os produtos que realmente precisa levar para casa.
O Armazém funciona como uma espécie de mercado social. As famílias previamente cadastradas e acompanhadas pelos serviços de assistência social recebem uma forma de crédito, que em Mairiporã será uma moeda, que pode ser utilizada para adquirir produtos disponíveis no espaço. Dessa maneira, a pessoa não recebe apenas aquilo que alguém escolheu por ela. Ela pode olhar, escolher, decidir. Pode levar o alimento que seus filhos gostam, aquilo que está faltando em casa ou aquilo que faz mais sentido para a sua família.
E talvez esteja justamente aí a grandeza desse projeto. Porque combater a fome não é apenas colocar comida na mesa. É também preservar a autonomia, a dignidade e o direito de escolha de quem está passando por um momento de dificuldade. É transformar assistência em cidadania.
E, no meu caso, existe ainda um sentimento impossível de separar de tudo isso. Saber que esse espaço receberá o nome da minha Mãe me emociona profundamente. Dona Zô foi uma mulher simples, trabalhadora, cozinheira de mão cheia, servidora pública e, acima de tudo, uma mãe que fez da própria vida uma dedicação aos filhos e à família. Talvez não exista homenagem mais bonita para alguém que passou boa parte da vida trabalhando e cuidando de pessoas do que emprestar seu nome a um lugar que terá justamente a missão de cuidar de outras pessoas.
Agora fica aquela ansiedade boa de filho. A ansiedade de ver a porta se abrir, o espaço começar a funcionar e, de alguma maneira, sentir que minha Mãe continua presente, ajudando a cuidar de pessoas, como sempre fez em vida. Dona Zô se foi em 2022, mas algumas pessoas não partem completamente. Permanecem nas histórias que contamos, nas lembranças que guardamos e, principalmente, no bem que continuam fazendo através daqueles que tiveram a sorte de conhecê-las. Que venha a inauguração e minha família está lá com o coração apertado de saudade e cheio de orgulho.
Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”