Acumulados

“Ainda não decorou?”. É o que todos me perguntam quando preciso abrir a minha carteira e pegar um documento para ver qual é o número do RG ou do CPF. “Não”, respondo em meio a um riso contido e, em partes, envergonhado. Afinal, todo mundo consegue decorar números. Por que eu, justamente eu, não conseguiria?
Já ouvi a pergunta constrangedora de amigos, conhecidos e até da moça que fica no caixa da farmácia. A resposta é sempre a mesma. A questão aqui não envolve “conseguir” – esse é um termo muito forte. Mas a verdade é que, quanto mais tempo passa, mais números nós somos obrigados a decorar. Lembrar todos e as combinações que fazem entre si, formando cada registro específico, essa sim é uma tarefa complicada. Antes, quando o mundo ainda não era repleto de números para lá e para cá, só tinha a responsabilidade de lembrar apenas de três combinações: o telefone da minha mãe, o telefone do meu pai e o telefone de casa. Como ainda não cuidava dos meus próprios documentos, não tinha porque saber quais números eles carregavam. Ninguém perguntava se queria “CPF na nota”, nem precisava preencher espaços com o número do meu RG.
Agora, anos depois, ter apenas essas três combinações guardadas no cérebro não me bastam mais, e admito que as novas me fazem falta. Dia desses, precisei voltar para pegar meus documentos quando me deparei com uma ficha de inscrição e, adivinha? Era necessário preenchê-la com números.
A última combinação que me recordo de ter decorado, sem antes um tempo de ensaio e esforço, foi a do número do meu próprio celular. Anotei em um papel e, por medo de não saber responder caso alguém perguntasse, acabei fixando na minha mente. De lá para cá outros números passaram, mas nenhum ficou, mesmo aqueles de que faço uso com mais frequência. Mas, como todo brasileiro, eu também não desisto nunca e não pretendo deixar os números me vencerem. Vou decorar. Apenas não garanto que será rápido.

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