“Não há lugar como o lar.” (Provérbio popular, imortalizado em O Mágico de Oz)
Há alguns dias assisti à versão de Odisseia, dirigida por Christopher Nolan. Saí do cinema em silêncio, não pelo espetáculo visual, mas porque, no meio da sala escura, percebi que a viagem de Ulisses não é sobre o mar. É sobre nós.
A epopeia de Homero conta o retorno de um homem para casa. Mas o que fica, séculos depois, não é o caminho, é o que ele encontra pelo caminho. E há uma cena que particularmente adoro e parece ter sido escrita para os dias de hoje: o canto das sereias.
Ulisses sabia que aquela beleza o destruiria se a ouvisse livre. Por isso pediu para ser amarrado ao mastro, e ordenou que seus companheiros tapassem os ouvidos com cera. Ele quis ouvir, mas quis também sobreviver ao que ouviria. Quantas sereias cantam para nós, sem que percebamos? O elogio fácil que nos afasta de quem somos. A pressa que promete sucesso e entrega apenas cansaço. A vaidade disfarçada de ambição.
Cantam bonito, prometem tudo, e raramente avisam que, do outro lado, há rochas.
Tem também Argos. O cão que esperou vinte anos pelo dono, deitado numa pilha de esterco, cego, velho, esquecido por todos. No instante em que reconhece Ulisses disfarçado, ergue as orelhas, abana o rabo e morre. Não há cena mais simples e mais devastadora na literatura. Argos não cobrou os anos de ausência. Apenas esperou. E amou até o último suspiro.
Quantos Argos existem à nossa volta? A mãe que pergunta quando vamos aparecer para almoçar. O amigo antigo que já não liga porque cansou de ligar sozinho. Aquele que ficou torcendo por nós enquanto corríamos atrás de outras conquistas, outros mares, outras promessas de glória.
Ulisses levou dez anos para voltar para casa. Enfrentou monstros, tempestades e deuses, mas o que o esperava, no fim, era simples: um cão velho, uma esposa fiel, um filho predestinado, um lar que nunca deixou de existir, mesmo com ele ausente.
Reflexão – Porque no fim, toda grande jornada ensina a mesma lição, cedo ou tarde: nenhuma conquista vale o preço de um lar vazio, esperando por alguém que demorou demais para voltar. Então, cuide do seu lar, do jardim do seu coração e do que realmente importa na sua existência.
A verdade é que a viagem nunca foi sobre chegar. Foi sobre quem soube esperar e sobre quem, ao voltar, ainda encontrou alguém à porta.
Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduado em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.