As pessoas torcem pela sua cura… até ela mudar você!

DRIELLI PAOLA

Existe um tipo de apoio que parece amor, mas é apenas conforto. É o apoio que diz “espero que você fique bem”, desde que continuar bem não signifique estabelecer limites. Desde que sua recuperação não faça você dizer “não”. Desde que sua paz não o afaste de quem sempre viveu do seu caos. Todos gostam da ideia da cura. Poucos gostam das consequências dela. Porque a cura verdadeira nunca devolve a mesma pessoa. Ela muda a maneira de amar, de trabalhar, de confiar, de permanecer e, principalmente, de partir.

Quando alguém atravessa uma dor profunda, seja um luto, uma decepção, uma doença, um trauma ou qualquer experiência que o obrigue a reconstruir a própria vida, existe uma expectativa silenciosa ao seu redor. Espera-se que essa pessoa melhore, mas que, ao melhorar, continue sendo exatamente como antes.

Que continue disponível. Que continue suportando o insuportável. Que continue perdoando sem mudança. Que continue aceitando migalhas para não desagradar ninguém. É uma expectativa impossível.

Quem realmente se cura aprende a reconhecer aquilo que antes chamava de amor apenas porque desconhecia outra forma de existir.

A recuperação muda os olhos. E, quando os olhos mudam, a paisagem também muda. Há amizades que sobreviviam porque uma das partes sempre cedia. Há relacionamentos sustentados pelo medo da solidão. Há famílias acostumadas ao filho que nunca contrariava, ao irmão que sempre resolvia tudo, à pessoa que carregava o peso emocional de todos sem reclamar. Então chega à cura. E, com ela, chegam os limites.

Chega à coragem de dizer “isso me machuca”. Chega à escolha de ir embora de lugares onde só havia permanência por culpa ou obrigação. Chega o silêncio onde antes havia justificativas intermináveis. É nesse momento que algumas pessoas deixam de aplaudir. Não porque desejassem seu sofrimento, mas porque, sem perceber, haviam aprendido a amar uma versão sua que lhes era conveniente.

A sua dor organizava a relação. Sua insegurança facilitava o controle. Sua necessidade de aprovação garantia permanências que talvez nunca existissem se você soubesse o próprio valor. É desconfortável admitir isso. Ainda assim, faz parte da vida.

Nem toda pessoa que celebra sua recuperação está preparada para conviver com quem você se tornou depois dela. Porque a cura tem um preço. Ela encerra papéis antigos. A pessoa que vivia pedindo desculpas aprende a exigir respeito. Quem aceitava qualquer migalha descobre que merece mesa posta. Quem passava a vida tentando salvar todo mundo compreende que algumas travessias pertencem apenas ao outro. E isso muda tudo.

Curar-se não significa tornar-se frio, arrogante ou inacessível. Significa apenas deixar de negociar aquilo que mantém a própria alma em paz. Haverá quem diga que você mudou, quase sempre com um tom de reprovação. A questão é: a mudança foi para pior ou apenas deixou de ser confortável para quem se beneficiava da antiga versão de você?

Existe uma diferença enorme entre perder pessoas porque nos tornamos alguém pior e perdê-las porque finalmente deixamos de aceitar aquilo que nos adoecia. Nem toda despedida é um fracasso. Algumas são apenas o efeito natural de uma cura verdadeira. Talvez o amor mais sincero seja justamente aquele que suporta a transformação do outro. Que não exige o retorno da antiga versão, que não sente saudade da pessoa ferida apenas porque ela era mais fácil de controlar.

Quem ama de verdade não deseja apenas que você sobreviva. Deseja que você floresça. Mesmo que as flores cresçam para um lado onde ele já não consiga caminhar ao seu lado.

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.