LUÍS ALBERTO
Bastou a Netflix lançar um filme sobre Elize Matsunaga para que ele rapidamente se tornasse uma das produções estrangeiras mais assistidas do mundo. Não foi a primeira vez e não será a última. A cada documentário, série ou filme inspirado em um crime que ganhou as manchetes, milhões de pessoas param para assistir.
Comentam nas redes sociais, criam teorias, relembram detalhes e, muitas vezes, conhecem pela primeira vez histórias que aconteceram anos ou até décadas atrás. Em casa, minha esposa quase sempre dorme ouvindo esse tipo de histórias.
É curioso perceber como determinados crimes parecem nunca envelhecer. O tempo passa. As notícias deixam os jornais. Novos acontecimentos ocupam os telejornais. Mas basta surgir uma nova produção para que tudo volte à tona, como se o caso tivesse acontecido ontem. Sou do tempo do Chico Picadinho e Maníaco do parque.
Pois bem, no fundo, o ser humano sempre se sente atraído pelo inexplicável. Queremos entender como uma pessoa comum pode cometer um ato extremo. Buscamos respostas para perguntas que, muitas vezes, nem a Justiça conseguiu responder completamente. Não é diferente dos antigos romances policiais que nossos avós liam. Ou das histórias de detetive que prendiam gerações inteiras diante das páginas de um livro.
A diferença é que hoje os personagens existiram de verdade. As vítimas tinham nome, família, sonhos. E os crimes deixaram marcas que nunca desapareceram. Mas até que ponto estamos interessados em compreender o comportamento humano e em que momento passamos apenas a consumir tragédias como entretenimento?
A indústria descobriu há muito tempo que o chamado true crime vende. E vende muito. Cada nova produção reúne milhões de espectadores ao redor do mundo. O interesse é legítimo. Afinal, faz parte da nossa natureza tentar entender aquilo que desafia a lógica. O problema começa quando o criminoso ganha mais espaço do que a própria vítima, quando a violência se transforma em espetáculo e quando esquecemos que, por trás do roteiro, existiram pessoas reais.
O sucesso do filme sobre Elize Matsunaga talvez diga menos sobre ela do que sobre nós. Vivemos fascinados por histórias que desafiam a razão. Gostamos de acreditar que estamos assistindo apenas por curiosidade, para entender a mente humana ou conhecer os bastidores de uma investigação. Mas, no fundo, existe algo mais profundo.
Existe esse desejo quase inevitável de olhar para o abismo, tentando descobrir o que leva alguém a atravessar a fronteira entre a normalidade e o impensável. É um comportamento antigo. Muito antigo. Antes dos documentários, havia os livros. Antes dos livros, as histórias contadas nas praças. Antes delas, as narrativas passadas de geração em geração.
Continuo curioso e por incrível que pareça, caro leitor, ainda não vi o filme, mas confesso: minha vez chegará neste final de semana.
Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”