Só para constar

EDITORIAL

As eleições gerais estão às portas e tudo o que a elas se relaciona é pauta da mídia ou desperta a curiosidade de leitores e eleitores. Um dos temas diz respeito ao número de eleitores filiados a partidos políticos. Em todo o País, são pouco mais de 16 milhões de pessoas com direito, a cada eleição, de participar das convenções que definem os candidatos. Na prática, porém, essa participação costuma ser mera formalidade.

Trazendo a questão para Mairiporã, existem hoje 30 partidos registrados (regulares ou não) – o mesmo número de siglas com atuação nacional. Tirando os seis, que possuem representação no Legislativo Municipal, os outros 24 são completos desconhecidos da maioria da população. A bem da verdade, apenas os partidos que conseguem eleger vereadores permanecem, de alguma forma, no imaginário do eleitor.

O foco, no entanto, está na participação partidária na vida da comunidade. A cidade contabiliza atualmente cerca de 6 mil filiados.

Desde que a imprensa mairiporanense regular (semanários) surgiu, nunca se falou, ouviu ou leu que algum partido tenha mobilizado seus filiados para encontros periódicos, promovido debates com autoridades sobre assuntos de interesse coletivo ou apresentado propostas em benefício da população.

Por estas paragens, partido político parece existir apenas para abrigar candidatos nas eleições para prefeito e vereador, tendo como principal – e quase único – ato a homologação de nomes previamente definidos por seus dirigentes. Em outras palavras, seus filiados aparecem de quatro em quatro anos e, ainda assim, em número reduzido. Muitas siglas limitam-se a cumprir a exigência legal de manter o número mínimo de integrantes em suas comissões provisórias, ou pouco acima disso.

Essas estruturas também acabam servindo, muitas vezes, aos interesses das instâncias superiores dos partidos, especialmente de deputados e dirigentes estaduais. Não é raro que comissões provisórias sejam destituídas de um dia para o outro, conforme as conveniências políticas de quem controla as siglas nas esferas estadual e nacional.

Não se pode afirmar que essa prática sem propósito ocorra apenas em Mairiporã. Ela é endêmica e se repete em milhares dos mais de cinco mil municípios brasileiros.

Mais do que organizações permanentes de representação política, muitos partidos transformaram-se em estruturas voltadas quase exclusivamente ao calendário eleitoral. Encerrada a disputa nas urnas, desaparecem das discussões públicas, das reuniões com a comunidade e da formulação de propostas para a cidade, ressurgindo apenas quando um novo pleito se aproxima.

Diante desse cenário, não seria exagero afirmar que, para uma parcela significativa das legendas, seus filiados existem apenas “só para constar”: figuram nos registros oficiais, cumprem exigências burocráticas e legitimam convenções, mas raramente participam de uma vida partidária efetiva, contínua e comprometida com os interesses da sociedade.