Pregando no deserto

Há situações em que a população se mostra desatenta, desinteressada ou simplesmente pouco preocupada com a redução diária do volume armazenado nos reservatórios do Sistema Cantareira. Estamos no período mais seco do ano, mas isso parece não afetar quem depende da água que chega às torneiras, pois o consumo excessivo continua em ritmo preocupante. Não é raro ver pessoas lavando carros, calçadas e quintais ou regando jardins e hortas como se não houvesse amanhã.

Embora especialistas afirmem que o abastecimento permanece sob controle, a segurança hídrica de milhões de pessoas que dependem exclusivamente do Cantareira vive sob constante ameaça.

A mudança de comportamento dos consumidores é cobrada ano após ano. Ainda assim, muitos fazem ouvidos de mercador e tratam os alertas das autoridades como se estivessem pregando no deserto.

O abastecimento do Sistema Cantareira depende da regularidade das chuvas, cenário que, segundo os institutos de meteorologia, não deve se alterar de forma significativa nos próximos meses. Mesmo que ocorram precipitações isoladas, dificilmente serão suficientes para compensar as perdas provocadas pelo consumo contínuo.

A Sabesp, responsável pela operação do sistema, vê-se obrigada, em momentos como este, a ampliar a captação de água em outras bacias hidrográficas, cada vez mais distantes, numa tentativa de atender à crescente demanda. Trata-se de uma solução necessária, mas que evidencia os limites do modelo diante do aumento do consumo e da falta de conscientização da população.

Todo esse esforço para buscar água mais longe implica maiores investimentos em obras, energia, infraestrutura e operação. Inevitavelmente, esses custos acabam refletindo no preço da água e pesando sobre toda a sociedade.

O que mais causa espanto é que, mesmo diante de um quadro progressivamente mais preocupante, grande parte da população não demonstra disposição para economizar água, tampouco para compreender que se trata de um recurso finito, cujo uso responsável interessa a toda a coletividade.

Medidas simples, como reduzir o tempo de banho, reutilizar água sempre que possível e eliminar desperdícios no dia a dia, continuam sendo negligenciadas. São atitudes individuais de pequeno impacto isoladamente, mas que, somadas, podem representar uma diferença significativa na preservação dos reservatórios.

É evidente que o poder público não pode se limitar a cobrar a colaboração da população. Cabe-lhe investir continuamente em infraestrutura, ampliar a oferta, reduzir perdas na distribuição e planejar o futuro. O que não se admite, porém, é uma sociedade indiferente ao problema, contribuindo para agravar uma situação que já exige atenção permanente.

Se nada mudar, voltaremos a assistir ao mesmo roteiro dos últimos anos: reservatórios em queda, campanhas de economia, obras emergenciais e preocupação generalizada quando a água já estiver escassa. O problema é que a consciência coletiva costuma chegar apenas quando a crise bate à porta. Até lá, continuaremos pregando no deserto.

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