Era no tempo do rei

A sensação de poder é um prato cheio para a sedução de sabores quando é posta a mesa para o banquete da soberba. Os egoístas não se contêm e logo seguem cravando seus garfos sem fim. A vontade é se esfaquearem até que um apenas se veja altivo frente aos holofotes. Nessa roda gigante da vida, tantos não aprendem e continuam despejando sua arrogância. Longe de mim confundir humildade com mediocridade. Simplicidade é uma atitude interior que por vezes desaparece no ser humano, quando é agraciado com um título que lhe atribui condição temporária que deveria ser a de servir e não a de mandar no próximo.

Se te parece confuso leitor, é porquê não convive em certos meios, onde surgem elevado número de pessoas com espírito de importância. Portadores da necessidade de ouvir todos os dias o quanto são imprescindíveis. Carência de aprovação anula toda leveza e descomplicação necessárias para que o mundo caminhe no trilho do sucesso de todos. Precisa saber de tudo ou se ofende, mesmo que a informação lhe sirva apenas como matéria prima de detração.

Por aqui – onde já pisaram os autoritários Coronéis – hoje desfilam uns reizinhos; que sentados quase lhe estouram os botões das camisas, mas que em pé, a pose logo lhes trai as intenções dos feitos na busca incessante por receber elogios, como as gorjetas de que tanto gostava Leonardo Pataca. E olha que já no tempo de Dom João VI, o tal meirinho, além do salário, era afeito a certos bônus, provenientes de vantagens escusas que o cargo proporcionava. Mas hoje, se ao tal reizinho basta só o paparico ou se é preciso também as patacas, isto já não sei dizer.

Muito amor aqui também surgiu de pisadelas e beliscões. No tempo do rei, Maria da Hortaliça teria parido de sete meses. Nos tempos do século XXI, onde nasceu o interesse, morreu o escrúpulo. O folhetim dessa semana também seria uma comédia romântica, não fosse a frustração deste que vos escreve, diante do fato de que como nas memórias do sargento de milícias, o interesse continua superando o significado.

 

Luís Alberto de Moraes tem formação em Letras, leciona há quase vinte anos e prepara o lançamento de um livro de crônicas e poemas. @luis.alb

 

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