Quem não?
EDITORIAL
Embora acostumada a escândalos financeiros, roubalheira institucionalizada, corrupção endêmica e outras práticas que lesam a República, a população brasileira parece estar estarrecida com os últimos acontecimentos envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master.
As investigações alcançaram diferentes escalões da República e, nos últimos dias, documentos, mensagens e outros elementos reunidos pela Polícia Federal passaram a revelar uma teia de relações que envolve políticos, autoridades, empresários e outros personagens. Parte desse material foi tornada pública pelo Supremo Tribunal Federal.
Se esse processo continuar se aprofundando, a impressão que fica é a de que ninguém nesta nação estará muito distante dele. E isso nos remete a um antigo ditado, tão atual quanto incômodo: “cada enxadada, uma minhoca”.
Mesmo os mais céticos se mostram impressionados diante do volume de dinheiro e da extensão das relações que vêm aparecendo nas investigações envolvendo o Banco Master. A cada novo documento, surge mais um nome, mais uma ligação, mais uma pergunta.
Pessoas próximas ao poder, figuras da principal Corte de Justiça do País, deputados, senadores, ministros, líderes partidários, dirigentes de instituições públicas, empresários, lobistas e até agentes ligados a institutos de previdência municipais aparecem, em diferentes contextos, no material que vem sendo analisado pelas autoridades. Isso, evidentemente, não significa que todos tenham cometido crimes. Investigação não é condenação, e a responsabilidade individual de cada citado precisa ser apurada.
O que causa estranheza, entretanto, é que parte da grande imprensa – muitas vezes tão pronta para condenar antecipadamente personagens de acordo com suas conveniências editoriais — parece adotar cautela incomum quando os nomes pertencem a determinados círculos de poder.
A mesma régua deveria valer para todos.
O que se espera, agora, é que não apenas Vorcaro, mas qualquer pessoa contra a qual existam provas de participação em ilícitos seja responsabilizada na forma da lei. Não se trata de defender quem quer que seja. Trata-se justamente do contrário: de exigir que a investigação alcance todos os envolvidos, sem distinção de cargo, partido, posição social ou proximidade com o poder.
Porque, para existir quem corrompa, é preciso existir quem aceite a corrupção. E quando estão envolvidos agentes públicos, a questão se torna ainda mais grave: o dinheiro que circula nas estruturas do Estado, em última análise, pertence à sociedade que financia governos, bancos públicos, fundos previdenciários e toda a gigantesca máquina administrativa por meio dos impostos.
A investigação já revelou, inclusive, elementos que ultrapassam a esfera estritamente financeira. Relatórios da Polícia Federal apontaram acesso indevido a informações sigilosas de órgãos públicos por pessoas ligadas ao grupo de Vorcaro, ampliando ainda mais a dimensão do caso.
E se toda essa história continuar produzindo revelações, nomes, valores, mensagens e novas conexões, será cada vez mais difícil para o brasileiro comum não fazer a pergunta que resume o espanto diante de tudo isso: QUEM NÃO?
Porque, no fim das contas, o que está em jogo não é apenas o destino de um banqueiro ou de um banco. É a confiança do cidadão nas instituições. E quando essa confiança começa a desaparecer a cada nova revelação, a conta deixa de ser de alguns investigados e passa a ser cobrada de toda a República.