Carta para quem fala ‘só mais um episódio’ (e nunca é só mais um)  

Querida pessoa que já olhou para o relógio e fingiu que não viu,

A gente precisa conversar. Mas antes, deixa eu adivinhar: você disse “só mais um episódio” ontem à noite, não foi? E aí veio aquele próximo automático. E depois mais um. E mais um “só esse porque agora ficou interessante”. E quando percebeu, já era outro dia. Tudo bem. Eu entendo.

Tem alguma coisa quase irresistível nesse momento. Quando você se ajeita no sofá, pega uma coberta, talvez um café ou um lanche improvisado, e decide que merece descansar um pouco. Só um episódio. Só um tempo seu. As mensagens podem esperar. As tarefas ficam em suspenso. O relógio vira quase um detalhe. Existe só você e aquela história que, de algum jeito, te puxou para dentro. Porque não é só sobre a série. É sobre pausa.

Sobre escapar por algumas horas de uma realidade que, às vezes, exige demais. Sobre entrar em outras vidas, outros conflitos, outros finais – alguns mais organizados do que os nossos. É sobre não precisar resolver nada por um tempo. Só assistir. Só sentir. Só existir ali, quieto, sem cobrança. E talvez seja por isso que nunca é só um episódio. Porque quando a gente encontra um pequeno refúgio, é difícil ir embora na primeira chance. A gente fica mais um pouco. Depois mais um. E quando vê, já criou um vínculo com personagens que nem existem, já se importou com histórias que não são suas, já riu, já se irritou, já até se emocionou, tudo isso numa mesma noite.

E, convenhamos, tem algo de bonito nisso também. Na capacidade de se envolver. De se permitir sentir, mesmo sabendo que é ficção. De escolher, ainda que por algumas horas, um lugar mais leve para estar. Claro, no dia seguinte vem o leve arrependimento. O sono acumulado, o despertador parecendo mais cruel do que o normal, aquela promessa silenciosa de que “hoje eu durmo cedo”. E a gente sabe que talvez não vá cumprir. Mas, ainda assim, tem dias em que esse “só mais um episódio” é exatamente o que a gente precisava.

Tem também aquele detalhe que a gente quase não admite: o conforto de saber que a história continua. Que diferente da vida, cheia de pausas, incertezas e finais em aberto, ali tudo segue, episódio após episódio, como uma promessa silenciosa de que alguma coisa vai fazer sentido no final. Mesmo que não faça, a gente continua assistindo. Talvez porque, no fundo, seja bom acreditar que algumas histórias ainda se resolvem.

Um respiro. Um intervalo. Um jeito simples de se cuidar, mesmo que não pareça o mais produtivo. Então talvez não seja sobre parar no primeiro episódio. Talvez seja sobre perceber o porquê de você querer ficar. E, quem sabe, aprender a equilibrar. Nem sempre dá. E tudo bem.

A vida também acontece nesses pequenos excessos. Nessas noites que fogem do controle, nesses momentos em que a gente escolhe ficar mais um pouco onde se sente bem. Talvez valha a pena, de vez em quando, olhar para o relógio, não com culpa, mas com gentileza. Lembrar que amanhã também precisa de você.

E que descansar não é só fugir, às vezes, é também cuidar. Mesmo que comece com um “só mais um episódio”.

Com carinho, para quem sempre acha que vai parar no próximo.

 

 

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.