Nem toda derrota acontece no placar

LUÍS ALBERTO

O último domingo apresentou ao mundo duas imagens completamente opostas. De um lado, o nascimento de uma seleção espanhola que reúne talento, organização e maturidade suficientes para despontar como uma das grandes forças do futebol mundial nos próximos anos. Do outro, o desfecho melancólico de uma seleção argentina extremamente vitoriosa, mas que escolheu encerrar sua campanha da pior maneira possível: comprometendo parte da admiração que havia conquistado, inclusive entre muitos brasileiros.

Não falo da derrota, caro leitor, já que perder faz parte do esporte. Nós, brasileiros, conhecemos bem esse sentimento. Já perdemos três finais de Copa do Mundo, uma delas dentro de casa, diante de milhões de torcedores. A derrota, por si só, jamais diminui uma equipe. O problema esteve na maneira como a Argentina reagiu a ela. Enquanto os espanhóis comemoravam a conquista do título, os jogadores argentinos permaneceram de costas durante a cerimônia de premiação. Os campeões levantavam a taça enquanto os vice-campeões se recusavam a olhar. Um gesto simbólico, mas poderoso. Nem mesmo na derrota conseguiram reconhecer a superioridade de quem foi melhor.

Como se isso não bastasse, alguns atletas ainda agrediram jogadores espanhóis que corriam para celebrar o título com seus companheiros. E esse não foi um episódio isolado. Ao longo da partida, repetiram-se entradas violentas, faltas duras, provocações e atitudes que, há décadas, fazem parte da imagem construída por parte do futebol argentino. Existe uma linha muito tênue entre competitividade e deslealdade, entre raça e violência. Em diversos momentos, essa linha pareceu ser ultrapassada.

É importante reconhecer que ninguém chega a uma final por acaso. A Argentina continua sendo uma seleção forte e competitiva. Porém, também é verdade que sua trajetória até a decisão foi consideravelmente menos exigente do que a de outras equipes, sem enfrentar seleções que ocupavam as primeiras posições do ranking mundial. Na final, durante o tempo regulamentar, pouco conseguiu produzir ofensivamente diante da superioridade espanhola.

Mas o futebol, infelizmente, não foi o único assunto que chamou atenção. Mais uma vez, surgiram episódios de racismo protagonizados por torcedores argentinos durante e após a competição. Evidentemente, isso não significa que todo argentino seja racista. Generalizações são injustas. Entretanto, também não podemos fingir que inúmeros casos vêm se repetindo ao longo dos anos, não apenas contra brasileiros, mas principalmente contra pessoas negras.

A história da própria Argentina ajuda a compreender parte desse contexto. Ao longo do século XIX, o país incentivou intensamente a imigração europeia como estratégia para moldar sua identidade nacional, enquanto a população negra, que participou da formação da sociedade argentina, foi drasticamente reduzida por guerras, epidemias e outros processos históricos. Esse passado não explica atitudes racistas no presente, muito menos as justifica. Mas ajuda a entender por que o tema ainda precisa ser enfrentado com seriedade.

E existe outro silêncio que incomoda: Lionel Messi, capitão, maior ídolo da história recente da seleção e um dos maiores jogadores que o futebol já produziu, jamais fez um posicionamento público firme diante dos recorrentes episódios de racismo envolvendo torcedores de seu país. Quando o assunto é racismo, o silêncio nunca é neutro. Neutralidade, nesses casos, beneficia quem insiste em discriminar. Ser contra o racismo exige posicionamento.

No fim das contas, a Argentina terminou menor do que começou esta Copa. Não porque perdeu para uma Espanha claramente superior, mas porque escolheu perder dessa maneira. E, aproveitando o debate que sempre ressurge, talvez seja hora de encerrar uma discussão que parece interminável. O maior jogador da história continua sendo Pelé. Não apenas pelos números, pelos recordes ou pelos três títulos mundiais. A grandeza de um ídolo também é medida pela forma como atravessa a história, pela influência que exerce e pelo legado humano que deixa. Existe uma enorme ironia nisso tudo. O maior jogador que o futebol conheceu era um homem negro.

E, para quem insiste em esquecer, vale a velha lembrança que atravessa gerações: Quem tem mais, tem cinco!

 

Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”