Fim do capitalismo não tornaria o homem mais ‘humano’

Tempos estranhos estes? Não! Tempos normais quando vemos o homem como ele é, despido da romântica “humanidade” moral que lhe atribuímos. Um animal territorial, dotado pela evolução biológica de um terrível e perigoso instrumento – a sua inteligência. Com ela submeteu a natureza que o criou e inventou sofisticadas “teorias” para separar-se em tribos que se veem com desconfiança dentro e nos limites do “território” que ocupam e estabeleceram como “seu”! Esse sentimento é tão poderoso que, frequentemente, ele sacrifica a única coisa que efetivamente dispõe – a própria vida – para defender-se da cobiça real ou inventada de outras tribos internas ou externas.
As pesquisas antropológicas recentes acumulam, cada vez mais, evidências de que só o homem é capaz, em nome de crenças sem nenhum suporte factual, de desenvolver poderosos preconceitos para “justificar” os mais pavorosos massacres de membros da sua espécie quando os “supõem” de outras tribos.
Não há registro desse comportamento em nenhuma outra espécie que a natureza produziu. O predador é sempre a espécie que está acima da cadeia alimentar, que a consome para sobreviver e reproduzir. Há registros esporádicos de lutas entre grupos de macacos, mas que não terminaram em “macacocídeos”.
A notícia mais amena é que a história revela também uma outra faceta da “natureza” do homem. Ainda que menos frequentemente, ele dá demonstração de altruísmo. Há alguns meses assistimos a uma explosão universal de solidariedade da espécie em resposta ao trágico acidente que se abateu sobre a Chapecoense.
Isso coloca um problema. Como saber se tem sentido – a não ser por um desejo generoso – afirmar que, para “civilizar” os homens, bastaria liberá-los dos constrangimentos que lhes impôs o regime capitalista, uma organização econômica que aumentou exponencialmente nos últimos 300 anos, a produtividade do seu trabalho (e o seu desejo de “quero mais”), mas gerou uma desigualdade insuportável?
Bastará eliminar o capitalismo para reduzir a agressividade e aumentar a solidariedade e o altruísmo potencialmente implícitos na natureza humana para que floresça no homem a imaginada “humanidade” que lhe atribuímos?
Tenho dúvidas. Afinal, somos diariamente testemunhas de que o homem é “humano”, tanto quando “mata” como quando “consola” o outro da sua espécie. As evidências antropológicas não sustentam a hipótese de que seu comportamento é a resposta à organização capitalista de produção.
A natureza do homem é um fenômeno complexo e é duvidosa a ideia de que a ciência lhe imporá a desejada “humanidade”, antes que ela produza sua própria destruição.

Fonte: uol

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