As Três mudanças
RAPHAEL BLANES
“Quando não podemos mais mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos” (Viktor Frankl)
Existe um momento em que a gente percebe que não precisa de uma vida nova. Talvez precise apenas de novas escolhas. Algumas mudanças parecem pequenas por fora, mas são rupturas por dentro: o que antes parecia normal deixa de fazer sentido, e o que parecia exagero começa a parecer cuidado.
A primeira é entender que nem toda companhia combina com a nossa energia. Não se trata de classificar pessoas como “boas” ou “ruins”, mas de reconhecer que há relações que nos fortalecem e outras que nos drenam. Umas deixam a gente mais leve depois da conversa; outras parecem cobrar pedágio até pelo bom humor. Afastar-se, às vezes, não é desprezo, é respeitar limites. E, curiosamente, pode ser bom para os dois. Nem toda distância é rejeição: algumas são só a forma adulta de dizer “talvez seja melhor cada um seguir seu caminho”.
A segunda é voltar a cuidar do próprio corpo. Passamos anos cuidando de trabalho, família e contas, e deixamos o corpo para depois. O problema é que ele não entende essa história de “depois”. Exercitar-se, comer melhor, emagrecer quando necessário, dormir bem, fazer exames e cuidar da aparência e da saúde não é vaidade, é manutenção da própria existência. Automóvel tem revisão, celular precisa de tomada, até planta pede água. Já nós, humanos, achamos que dá para rodar para sempre à base de café, ansiedade e quatro horas de sono.
A terceira talvez seja a mais profunda: buscar conexão com o Criador, com o transcendente, com aquilo que nos ultrapassa. Seja qual for a denominação ou a forma de viver a espiritualidade, há algo poderoso em reconhecer que não somos o centro do universo. Orar, silenciar, agradecer, contemplar, participar de uma comunidade de fé ou simplesmente conversar com Deus devolve a perspectiva que o excesso de ruído rouba. Quando tudo depende só de nós, qualquer problema parece maior do que é.
As três mudanças têm algo em comum: deslocam o foco. Do que me desgasta para o que me fortalece. Da aparência para a saúde. Da correria para o sentido. Do controle absoluto para a confiança. Talvez amadurecer seja isso: não mudar quem somos a cada semana, mas perceber que o que funcionava ontem já não serve para a pessoa que estamos nos tornando.
Reflexão – Talvez você não precise virar outra pessoa. Talvez precise apenas parar de alimentar o que está te adoecendo, cuidar do que te sustenta e voltar a conversar com ‘aquele’ que lembra por que tudo isso vale a pena. Afinal, algumas das maiores revoluções da vida não fazem barulho.
Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduado em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.