DRIELLI PAOLA
Sempre achei curioso o papel dos faróis. Quando pensamos neles, imaginamos segurança. Mas essa não é exatamente sua função. Faróis não acalmam o mar. Não fazem cessar os ventos. Não impedem que as ondas se levantem ou que a noite cubra o horizonte. Também não conduzem embarcações até o porto. Eles apenas permanecem acesos.
Durante muito tempo achei que amar alguém significava entrar em todas as tempestades ao seu lado. Querer resolver seus problemas, carregar seus pesos, encontrar respostas para perguntas que nem me pertenciam. Havia uma certa arrogância escondida nessa vontade de salvar. Com o tempo, descobri que algumas travessias não admitem companhia.
Há mares que cada pessoa precisa atravessar sozinha. Ninguém pode fazer o luto por outro. Ninguém pode aprender a perdoar em lugar de alguém. Ninguém amadurece por procuração. Existem dores que não aceitam substitutos. Talvez seja por isso que os faróis sejam tão sábios. Eles não entram no oceano. Permanecem firmes na costa, iluminando sem invadir.
É curioso como confundimos presença com interferência. Acreditamos que amar alguém é impedir que sofra. Mas talvez existam sofrimentos que não são castigos, e sim caminhos. Há tempestades que destroem embarcações. Outras ensinam marinheiros. Quem tenta impedir toda dor também impede parte do crescimento. Isso não significa abandonar quem amamos. Significa compreender que existe uma diferença entre caminhar ao lado de alguém e caminhar por ele.
As pessoas que vivem como faróis oferecem algo muito raro: presença. Não vivem dizendo o que fazer. Não controlam. Não invadem. Também não desaparecem. Elas permanecem. São aquelas pessoas cuja simples existência nos lembra que ainda existe um rumo possível, mesmo quando a noite parece interminável.
Curiosamente, quase nunca são as mais barulhentas. Não costumam fazer discursos grandiosos nem ocupar todos os espaços. Sua influência nasce da constância. Estão ali quando a alegria chega, mas também quando tudo parece desmoronar. Não precisam ser protagonistas da história de ninguém para fazer diferença. Apenas permanecem acesas.
Talvez todos nós nos lembremos de alguém assim. Um professor que acreditou em nós antes mesmo de acreditarmos. Uma avó que transformava qualquer casa em abrigo. Um amigo que nunca teve todas as respostas, mas nunca deixou faltar silêncio quando as palavras já não bastavam. Essas pessoas dificilmente resolvem nossa vida. Mas, de alguma forma, mudam nossa travessia.
Porque há noites em que não precisamos de um barco maior. Precisamos apenas de um ponto de luz no horizonte para lembrar que ainda existe terra firme em algum lugar. Penso que o mundo anda cansado de pessoas que querem ser heróis. Talvez esteja precisando mais de faróis. De gente que compreenda que nem toda ajuda acontece pela intervenção. Às vezes, ela acontece pela permanência. Pela escuta. Pela coragem de ficar quando seria mais fácil partir. Pela delicadeza de respeitar o tempo do outro sem abandonar sua margem.
Um farol jamais atravessará o oceano para salvar um navio. Ainda assim, incontáveis embarcações chegam ao destino por causa dele. Talvez seja essa uma das formas mais bonitas de amor. Não viver a vida de alguém. Mas permanecer aceso o suficiente para que, quando a tempestade passar, essa pessoa consiga encontrar, sozinha, o caminho de volta para casa.
Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.