A pedra

“A pedra não fecha o caminho, aprofunda o viajante.” (Carlos Drummond de Andrade)

Estava relendo o conhecido poema A Pedra, cuja ideia central pode ser resumida assim: diante da mesma pedra, alguém tropeça, outro a usa como arma, outro a transforma em assento ou construção; há quem dela faça arte ou instrumento de libertação. A pedra é a mesma o que muda é a atitude de quem a encontra.

Essa imagem simples carrega uma verdade profunda sobre o cotidiano humano. Nossas “pedras” raramente são grandiosas; na maioria das vezes, aparecem nas pequenas fricções repetidas: a impaciência na fila do mercado que nos faz perder a gentileza, a irritação com alguém que atravessa lentamente a faixa de pedestres, o julgamento apressado que antecede qualquer compreensão. Há também as pedras internas inseguranças antigas, medos silenciosos, ressentimentos guardados que, sem perceber, endurecem nossas respostas e estreitam nossa capacidade de acolher.

O poema nos recorda que a pedra não define o destino de ninguém. Ela pode ser obstáculo, arma ou fundamento. Pode ferir ou sustentar. Como ensina a sabedoria popular, “quem transforma a pedra constrói caminho”, lembrando que a diferença não está no que nos acontece, mas no que fazemos com o que nos acontece.

A história humana é, em grande parte, a história de transformar pedras em caminhos. Cada pessoa que decide amadurecer com um erro, crescer com uma perda ou construir algo a partir de uma queda está, simbolicamente, talhando sua própria pedra. A diferença nunca esteve na matéria bruta da vida, mas na forma como a trabalhamos por dentro.

Nesse sentido, a pedra do poema deixa de ser objeto e se torna espelho. Ela nos pergunta: o que você faz com o que lhe acontece? Há quem tropece e permaneça no chão. Há quem arremesse sua dor contra os outros. E há quem sente, observa, compreende e, pouco a pouco, transforma dificuldade em estrutura experiência em sabedoria.

Reflexão – Talvez a grande mensagem do poema seja esta: não escolhemos todas as pedras do caminho, mas escolhemos o que fazemos com elas. E é nessa escolha, repetida nos gestos simples de cada dia, que fazemos a diferença, tenho conversado com tanta gente ultimamente, ouvindo muita história bacana, aprendo muito com cada conversa, porém em todas elas o que mais vejo é como as pessoas são fortes resilientes e batalhadoras, constroem castelos e pontes com cada pedra que encontram no caminho e isso me inspira muito …

 

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduando em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.

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