O medo que as pessoas têm da sua autonomia
DRIELLI PAOLA
“A liberdade de uma pessoa costuma revelar a prisão da outra.” Adoro essa frase. Ela resume bem porque algumas pessoas se incomodam tanto quando percebem que você aprendeu a caminhar sozinha. Não necessariamente porque esteja fazendo alguma coisa errada. Às vezes, você simplesmente deixou de pedir permissão. Passou a escolher por conta própria. A dizer não. A mudar de ideia. A sair de lugares onde já não se sente bem. A não explicar cada decisão como se precisasse apresentar uma justificativa para viver a própria vida.
Quando alguém aprende a se respeitar, algumas relações mudam. Quem estava acostumado a ultrapassar seus limites perde espaço. Quem contava com a sua disponibilidade começa a encontrar um “não”. Quem se acostumou com o seu silêncio percebe que você agora fala. Quem esperava que você permanecesse no mesmo lugar descobre que você também sabe ir embora.
Nesse momento que podem surgir os julgamentos. Você ficou diferente. Está distante. Está egoísta. Está pensando demais em si. Está difícil de lidar. Às vezes, não é que você tenha se tornado uma pessoa pior. É que você deixou de ser conveniente.
Isso pode explicar algumas das críticas que recebemos quando começamos a estabelecer limites. Há pessoas que não sentem falta exatamente de nós, mas do acesso que tinham a nós. Sentem falta da versão que aceitava mais, perdoava mais, explicava mais, cedia mais. Porque existe uma diferença enorme entre pedir conselho e pedir autorização.
Você pode ouvir quem ama, considerar opiniões, reconhecer seus erros e, ainda assim, continuar sendo responsável pelas próprias escolhas. Autonomia não é ausência de afeto. Não é fazer tudo sozinho. Não é deixar de se importar com os outros. É entender que consideração não pode significar abandono de si mesmo.
Existe uma fase especialmente bonita nisso tudo, aquela em que você percebe que não precisa mais convencer ninguém de que suas escolhas fazem sentido. Você simplesmente sabe por que as fez. Já não sente a necessidade de transformar cada decisão em uma longa explicação, nem de conseguir a aprovação de todos antes de seguir. Algumas pessoas vão entender, outras não. E, pela primeira vez, isso não muda o caminho que você escolheu.
É aí que o estranhamento aparece. Quando você começa a se escolher, algumas pessoas precisam aprender a se relacionar com uma versão sua que não depende mais da aprovação delas. E nem todo mundo sabe fazer isso. Porque é confortável quando sabemos exatamente o lugar que ocupamos na vida de alguém. Quando sabemos que determinada pessoa sempre estará disponível, sempre aceitará, sempre permanecerá. Até que ela percebe que também pode escolher. Pode dizer não. Pode ir embora. Pode mudar. Pode simplesmente dizer “isso não me faz bem.”
Uma das formas mais bonitas de liberdade é não precisar diminuir a própria vida para que outra pessoa se sinta segura dentro dela. No fim, cada um precisa descobrir quais são as próprias prisões. E, principalmente, quais delas foram construídas por medo, culpa ou pela necessidade de agradar. Porque ser livre não significa não ter vínculos. Significa não se perder dentro deles.
E, quando a nossa liberdade incomoda alguém, vale a pena lembrar que nem toda crítica é um sinal de que estamos errados. Às vezes, é apenas o sinal de que alguém percebeu que já não consegue nos tratar como antes. E talvez seja justamente aí que esteja uma das formas mais silenciosas de vitória, não precisar diminuir quem você se tornou para caber novamente no lugar onde um dia esperaram que você permanecesse.
Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.