Roma e a arte de matar a sede

RAPHAEL BLANES

“A simplicidade é a maior das sofisticações.” (Leonardo da Vinci)

Há cidades que impressionam pelos monumentos. Outras, pelos museus. Roma consegue fazer algo ainda mais curioso: transformar até a água em história.

Nestes dias em que caminho por suas ruas, entre monumentos que atravessaram séculos e pequenas cenas do cotidiano, uma coisa me chamou a atenção: as fontes públicas espalhadas pelas esquinas, conhecidas pelos romanos como nasoni. O nome vem do formato da torneira, que lembra um nariz.

São mais de 2 mil fontes de água potável, gratuitas para moradores e visitantes. É uma dessas coisas que quase passam despercebidas.

A cidade que guarda o Coliseu, o Panteão, a Basílica de São Pedro (Vaticano) e obras de Michelangelo, também oferece algo muito mais simples: água para quem tem sede.

E talvez exista aí uma boa lição.

Vivemos em uma época em que quase tudo parece ter preço. Roma, em meio a tantos séculos de história, conserva uma ideia curiosamente moderna: aquilo que é essencial não deveria ser privilégio de poucos.

Uma fonte não pergunta quem você é, de onde veio ou quanto pode pagar. Se você tem sede, ela simplesmente oferece água.

Talvez as cidades também possam ser avaliadas por aquilo que oferecem sem pedir nada em troca: uma praça para sentar, uma árvore para fazer sombra, um banco para descansar ou uma fonte onde um desconhecido possa matar a sede.

No fim, civilização talvez não seja apenas aquilo que construímos para ser admirado. Pode ser também aquilo que construímos para cuidar.

Entre uma ruína de dois mil anos e uma fonte que ainda hoje mata a sede, existe uma pergunta bastante atual: o que estamos deixando disponível para quem vem depois de nós?

Talvez progresso não seja apenas construir mais, produzir mais ou comprar mais. Talvez seja também garantir que aquilo que é essencial continue acessível.

Porque uma cidade pode ser antiga. Mas algumas ideias nunca envelhecem.

E talvez seja justamente caminhando por Roma que percebemos que, por trás dos grandes monumentos, são os pequenos gestos que muitas vezes revelam o tamanho de uma civilização. Há muito mais que Roma tem despertado em mim. Em breve novas histórias e impressões!

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduado em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.

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