O Todo-Poderoso
EDITORIAL
Não são necessárias nem 24 horas para aquilo que ontem era um espanto se transformar em inacreditável. O assunto, claro, é Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Não há dúvida, a esta altura dos acontecimentos, de que se trata do homem mais poderoso da República, cujos tentáculos alcançaram praticamente todos os setores da economia do país e, a reboque, as três instâncias que formam o arcabouço que governa a nação. Não contente, solapou todas elas, deixando cicatrizes profundas.
As notícias sobre Vorcaro causam perplexidade não pela sua ousadia em corromper autoridades, empresários e políticos em geral, pois este Brasil é uma verdadeira escola para quem deseja estudar como a prática da corrupção leva ao enriquecimento, na maioria das vezes com direito à impunidade. Causam perplexidade, principalmente, por escarafunchar as entranhas de homens públicos que deveriam defender os interesses do povo e zelar pelo bom uso do dinheiro suado que o trabalhador paga para sustentar uma estrutura que deveria lhe proporcionar melhor qualidade de vida.
A julgar por tudo o que se vê, lê e ouve, raras serão as pessoas que escaparam das garras de Vorcaro e que não receberam propinas. Quem meteu a mão nessa cumbuca, uns mais e outros menos, é bandido, na acepção do termo.
Tudo leva a crer que Mensalão, Petrolão, INSS, Orçamento Secreto e outros escândalos foram transformados em mera ação de punguistas, tamanha a grandeza dos números que vêm sendo divulgados no caso Master.
O Executivo e o Legislativo têm muitos representantes dessa ignomínia, que vem de longa data. Mas antes nunca se tinha sabido que a principal Corte Judiciária do país também tinha representantes desde a primeira hora – e que seguem em plena função em seus cargos, com a desfaçatez de continuarem atuando como julgadores.
Pelo tamanho da patifaria e pelo protagonismo dos envolvidos, é de se esperar que tudo isso não termine na conhecidíssima Pizzaria Brasil.
Diante de tudo o que este país já vivenciou, desde a chegada de Pedro Álvares Cabral, deveria ser mudado o artigo primeiro da Constituição: “Artigo 1º – Todo brasileiro é corrupto, até prova em contrário.”
Mas talvez nem isso seja suficiente. O Brasil já não parece ser um país onde a corrupção simplesmente acontece; parece ter se transformado em um sistema no qual dinheiro, poder e influência se encontram nos lugares mais improváveis.
Se as investigações conseguirem chegar ao fim e separar culpados de inocentes, talvez reste ao cidadão brasileiro uma última esperança: descobrir que, apesar de tudo, ainda existem instituições capazes de investigar, julgar e punir os que transformaram a República em balcão de negócios.
Caso contrário, restará apenas trocar a placa na entrada do país: “República Federativa do Brasil – propriedade particular. Favor não incomodar.”