O velho jornal chega a 218 anos

LUÍS ALBERTO

Provavelmente você não pegou este jornal em uma banca. Talvez tenha encontrado no supermercado, na padaria ou em algum outro ponto de distribuição. E há uma grande chance de que esteja lendo este artigo de forma virtual, afinal, as bancas de jornal estão desaparecendo aos poucos das nossas cidades.

Quem viveu sabe do gosto que era comprar uma revista, escolher um jornal, folhear alguma coisa enquanto caminhava pela rua. As bancas foram um retrato poderoso do Brasil. Faziam parte do cotidiano das pessoas, movimentavam um mercado importante e eram, acima de tudo, pontos de encontro com a informação. Mas como um dos maiores símbolos das ruas brasileiras foi do auge ao quase esquecimento? Para entender isso, precisamos voltar bastante no tempo.

Na Europa, a circulação periódica de notícias vem de longa data. Primeiro com folhas manuscritas e, depois, com jornais impressos que foram ganhando espaço entre os séculos XVI e XIX. À medida que as prensas ficaram mais rápidas e o papel mais barato, a notícia deixou de ser apenas um artigo de luxo e começou a se transformar em uma verdadeira mercadoria urbana. A ideia da notícia circulando pelas ruas também foi essencial para o modelo que chegaria ao Brasil. Em 1808, com a chegada da Corte portuguesa, entrou em cena aquilo que se tornaria um marco para a imprensa brasileira. Em 10 de setembro daquele ano circulou, no Rio de Janeiro, a primeira edição da Gazeta do Rio de Janeiro, produzida pela Impressão Régia. Era o primeiro jornal impresso e publicado no Brasil.

Mas existe uma curiosidade importante nessa história. Poucos meses antes, em junho de 1808, já havia circulado o primeiro número do Correio Braziliense, de Hipólito José da Costa. A diferença é que ele era produzido e impresso em Londres e chegava ao Brasil por navios. Portanto, quando falamos do nascimento da imprensa brasileira, é importante lembrar dos dois: o Correio Braziliense, pioneiro periódico brasileiro, e a Gazeta do Rio de Janeiro, primeiro jornal produzido e impresso em território brasileiro.

Podemos dizer, caro leitor, que a notícia ainda não era coisa tão popular. O acesso era restrito, a circulação era limitada e o hábito de comprar um jornal na rua ainda estava muito longe de fazer parte da rotina da maioria dos brasileiros. E, para sua informação, o Correio Juquery, que chega até você também na forma impressa, é produzido na minha querida Bragança Paulista.

Com o passar dos anos, a imprensa ganhou força. Surgiram revistas, publicações temáticas, periódicos políticos e os famosos pasquins. Aos poucos, as pessoas foram se acostumando a colocar os olhos no papel impresso. Vieram também os vendedores de jornais, os chamados gazeteiros ou jornaleiros, que percorriam as ruas oferecendo as notícias do dia. E aqui começa uma história que gosto especialmente de contar. Já escrevi aqui que meu primeiro ofício foi justamente o de entregador de jornais, no início da década de 1990. Talvez por isso eu tenha uma relação tão afetiva com esse pedaço da nossa história.

No século XIX, os jornais começaram a ganhar espaço na venda avulsa e, por volta de 1860, surgiu no Rio de Janeiro uma figura que se tornaria parte dessa história: o imigrante italiano Carmine Labanca. A história conta que Labanca estava cansado de carregar jornais pelas ruas, debaixo do sol carioca, e encontrou uma maneira simples de facilitar o trabalho. Em vez de caminhar o dia inteiro com os jornais nos braços, passou a colocá-los sobre caixotes, criando uma espécie de vitrine improvisada em um ponto fixo.

A história mais conhecida associa essa iniciativa ao Rio de Janeiro e diz que os leitores passaram a procurar os jornais “no Labanca”. Com o tempo, a expressão teria se transformado em “banca”, nome que atravessou gerações. O fato é que as bancas se espalharam e ganharam importância.

O cheiro do papel, a tinta nas mãos e textura da folha. O barulho de uma página sendo virada. O hábito de dobrar o jornal e levá-lo para casa. A sensação de sentar em algum lugar e simplesmente folhear as notícias. São pequenas coisas que parecem antigas, mas que carregam uma parte enorme da nossa história enquanto houver alguém disposto a abrir uma página para ler uma história, acredito que o velho jornal ainda terá muita coisa para contar.

Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”

 

 

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