Feminicídio: entre a lei e a realidade

EDITORIAL

Um antigo ditado, que boa parte da população talvez nem saiba mais o que significa, continua atualíssimo quando o assunto é feminicídio: “para inglês ver”. Ou seja, a legislação de proteção às mulheres está no papel, a propaganda em torno dela – especialmente da Lei Maria da Penha (que completou 20 anos no último dia 7) – aumenta ou diminui de exposição na mídia de acordo com a gravidade dos fatos, mas os responsáveis pelas mortes e agressões continuam, em muitos casos, sem a punição que a sociedade espera.

A imprensa divulga diariamente casos de mortes, espancamentos e outras formas de violência contra mulheres em todo o País. Também repercute estatísticas produzidas pelos órgãos de segurança e pelas Delegacias da Mulher, embora nem sempre existam dados uniformes e abrangentes em todo o território nacional.

Nada disso, entretanto, parece suficiente para intimidar os agressores. As páginas policiais dos jornais e os programas de televisão estampam crimes hediondos, mas, muitas vezes, a sensação é de que todo o processo termina na divulgação da tragédia.

Não se vê, pelo menos com a intensidade necessária, uma ação capaz de transformar a legislação em proteção efetiva e de retirar do convívio social aqueles que representam ameaça às suas companheiras ou ex-companheiras. Os movimentos de mulheres, as manifestações públicas e a participação em programas de televisão parecem continuar sendo algumas das poucas armas disponíveis para chamar a atenção para um problema que já deveria ter deixado de ser tratado como recorrente e inevitável.

O Brasil ainda carrega fortes marcas de uma sociedade machista e conservadora. A desigualdade entre homens e mulheres persiste em diferentes setores, da educação ao mercado de trabalho, e a violência doméstica é uma das expressões mais brutais dessa realidade.

Ter leis rigorosas é indispensável, mas leis, por si só, não protegem ninguém. Quando não são acompanhadas de prevenção, investigação, julgamento e punição eficazes, correm o risco de se transformar em letra morta.

Os assassinatos e espancamentos de mulheres, quase diariamente, acabaram incorporados à rotina dos programas policialescos. Em alguns deles, a tragédia transforma-se em manchete, repetida à exaustão, como se a repetição da notícia pudesse produzir alguma mudança. Não produz. O que deveria causar indignação acaba, perigosamente, sendo tratado como parte da paisagem cotidiana.

É preciso, portanto, romper esse ciclo. A morte de uma mulher não pode ser apenas mais uma ocorrência policial, nem a agressão mais um número nas estatísticas. Enquanto a prevenção falhar, enquanto as denúncias não forem levadas suficientemente a sério e enquanto a punição não chegar de forma efetiva aos agressores, a distância entre o que está escrito na lei e aquilo que acontece nas ruas, nas casas e nos relacionamentos continuará enorme.

E, nesse caso, “para inglês ver” deixará de ser apenas um velho ditado para se tornar a definição de uma realidade que não podemos mais aceitar.

Posts similares

  • 13 anos

    O Correio Juquery comemorou no dia primeiro deste mês 13 anos de circulação ininterrupta em Mairiporã, período em que conquistou a confiança de leitores e anunciantes e reafirmou seu compromisso de bem informar. E também foi num mês de março que surgiu o site do jornal, hoje o mais acessado em toda a região, com…

  • Mais um

    A anormalidade brasileira é um dos fatores que explicam a enorme turbulência que se abateu sobre o sistema presidencialista brasileiro. Dezenas de partidos para negociar no Congresso e um presidente que se vê, em seu terceiro mandato, longe do protagonismo de outrora, agora nas mãos de deputados e senadores. Segundo levantamento recente divulgado sobre legendas…

  • Que cardápio!

    O eleitor brasileiro vai contar com um cardápio pouco apropriado na escolha do futuro presidente da República, que vai ser feita em 2022. Nunca antes neste País (né, Lula!) tivemos uma renca como a que se anuncia desde já. De um lado, o atual presidente Bolsonaro, que carrega consigo a teimosia, o destempero e uma…

  • O vice-prefeito

    A figura do vice-presidente, do vice-governador e do vice-prefeito não possuem status de protagonistas. Segundo na hierarquia, muitos eleitos ficam à margem de todo o processo político-administrativo, a maioria por vontade expressa do presidente, do governador e do prefeito. A sombra que fazem intimidam os titulares. Em Mairiporã, segundo historiadores, apenas dois vices se tornaram…